segunda-feira, 20 de abril de 2009

Marlon Brando



..Pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações...

Jack Kerouac

The Doors


“Algumas pessoas têm da poesia uma idéia tão vaga que tomam o próprio vago por uma idéia de poesia”.

Paul Valéry

domingo, 19 de abril de 2009

Mickey Rourke


A primeira impressão que transparece em Mickey Rourke é que tudo nele é articulado aos detalhes; e isso talvez aconteça por ser diabolicamente observador, nada lhe escapar. Em seguida, uma vivacidade meio infantil, encantadora, cheia de armadilhas no seu olhar prontas para atuar no ataque a outra pessoa, ou em defesa brusca por algum ideal. Esse perfil de fragilidade, sedução e adorável manipulação talvez lhe empreste a intimidade e intensidade ideais à postura dos seus papéis mais freqüentes, a do brilhante homem frágil, mas há certamente algo mais: o respeito às distâncias e a capacidade de captar (e inserir) os dados circunstanciais da Cena na formação dos pontos luminosos de sua Atuação; acompanhantes da mais perfeita lisibilidade de relato e condensação da matéria dentro do que está associado à competência/naturalidade/vigor dentro do cinema.


Groucho Marx


O arco temporal que se inicia com a morte de Groucho ainda nos reserva outro nome portador de cárites semelhantes. A confiança espalhafatosa de suas máximas não encontrou nenhuma aproximação performática; o anarquismo de sua pose esfíngica sequer poderia ser pensado; a voragem de suas singulares ironias revela-se cada vez mais criativa e pulsante a uma época de pobre potencial, mas de intensa investida ao registro; o equivalente para a produção extra de sua usina pantomímica; ou mesmo seu flanar nonsense, na contramão da objetividade castradora a que o humor vem estreitando relações. Faz falta.

Arte que Troteia



"Quando finalmente o conheci, logo vi que não se tratava precisamente de um artista, mas antes de um homem do mundo. Entenda-se aqui, por favor, a palavra artista num sentido muito restrito, e a expressão homem do mundo num sentido muito amplo. Homem do mundo, isto é, homem do mundo inteiro, homem que compreende o mundo e as razões misteriosas e legítimas de todos os seus costumes; artista, isto é, especialista, homem subordinado à sua palheta como o servo à gleba. G. não gosta de ser chamado de artista. Não teria ele alguma razão? Ele se interessa pelo mundo inteiro; quer saber, compreender, apreciar tudo o que acontece na superfície de nosso esferóide."

Charles Baudelaire sobre Constantin Guys.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Rocky Balboa


Simples, direto, enxuto; nunca pendendo sua pegada mais idiossincrática a ponto de atravessar a trama em esforço de barra (a salvo dois ou três tons floppy carregados em falas referentes à grandeza dos sentimentos verdadeiros), ou esbanjando uma auto-importância fungante. O que nesses tempos de superafetação ou franca apatia seletiva consegue tornar o filme ainda mais simpático do que ele o é. Rocky projeta como nenhuma outra peça na carreira de Stallone seu caráter, posicionamento como artista e jeito de ser nas descrições do cotidiano do ex-pugilista: homem cuja maior ambição é criar lastros de honra, coerência, acessibilidade aos “seus” e coragem na provação de sua grandeza. São aspirações muito vívidas, cativantes, daquelas que só se fazem valer quando alguém as viveu profundamente, vincando-se muitas marcas em si. E que exercem em Stallone uma maneira bem resolvida, e por isso mesmo orgânica/concisa, de dar voz e postura à sua personagem-projeção nesta dialética contra o status quo da entrega e da impessoalidade do homem. Através da uma ressonância ética pendente ao romantismo, o entorno formal de Rocky Balboa (principalmente os filtros e a concessão de tempo e luz aos atores) tende a maximizar o que em palavras talvez fosse impossível de se alcançar sem cair na irregularidade da força atmosférica que o toma. Embora a isto não esteja imune a questão do excesso, porque é um filme assinado por quem não sente vergonha por suas preferências menos próximas à elegância da discrição. O que, entre parênteses, talvez o torne ainda mais verdadeiro ou condizente, melhor dizendo. Aqui, também, e sobretudo, prova-se com bastante pertinência que a encenação no cinema é feita por etapas de conciliação; psicologia e presença, ou corpo e alma, na síntese do gesto perspectivado em quadro. Mise-en-scène é atenção ao sismógrafo da superfície dos objetos. Ao contrário de Rambo IV, a intuição comanda em Rocky Balboa. Um tanto melhor.

Dogville

Câmera antropomórfica, direta no acompanhamento das personagens. Ao mesmo tempo em que, a partir marcação dos atores, perscruta o ambiente. Sua disposição é revelar as nuances simbólicas de um cenário que é composto basicamente por traços demarcatórios de uma propriedade a outra. O grande vazio de suas vidas será designado como imagem reitora, em Dogville. Estamos diante de uma análise combinatória de ações, psicologias e resoluções dramáticas, que conta como pano de fundo alguns aspectos reminiscentes e negativos da história norte-americana. Grace, que é a única pessoa decente do filme, será castigada cruelmente pelos demais moradores. Sim, a narrativa frouxa e assente no sentimentalismo piegas tem um objetivo muito claro: usá-la como pretexto para ‘deslindar’ os limites a que foram submetidos os cidadãos americanos; revelados numa prisão materialista, provinciana e falsa moral na visão programática do diretor. Ao imiscuir recursos sonoros e metafóricos, utilizando-os como agentes dilatadores do raio de ação, o filme se prende a uma camisa de força involuntária. Tais ditames soam demasiado didáticos e ostensivos nos movimentos de um quotidiano não menos banal nos mecanismos críticos lhes pertencente: a par do choque como gesto político contra o jogo de aparências da sociedade, porém devedores à firmeza de sua progressão cênica. Em suma, o filme parece mal pensado; entulhado de exclamações deterministas.

Paris, Texas

As composições desencantadas de Wenders, em Paris, Texas, tendem a evocar-me o sentimento lúgubre transmitido em algumas paisagens de Michelangelo Antonioni. Não por conta de filiações estéticas ou intensidades correlatas. Mas pelo resultado da metodologia com que captam a desolação de suas personagens avulsas, entabulada através da perspectiva do plano aberto, e do peso outonal da imagem-distância pincelada. Ao rebate das agruras internas dos objetos, ambos sustentam uma precisão no domínio das sugestões emocionais, provavelmente, associável a pouquíssimos outros nomes. Belo filme. Grandes interpretações. De ressalva, uma ou outra metáfora infeliz à morte do cinema e aos agentes da alienação da sociedade moderna, porque simplistas.

Ato Falho

E eis que em meio a tantos bric-à-bracs amorfos de emulação passadista, quando não televisiva, quando não pseudo-verité, surge-nos um filme dado aos fulcros dramáticos e à transparência de dispositivos no universo de curtas metragens brasileiro; trabalhando ao nível da essencialidade e da escala, simplesmente. Ato Falho parte do concreto dos movimentos quotidianos frente a uma ilha gradativamente esquecida, a vídeo-locadora, para pontuar a investida declaração de amor à mesma, que como sabemos não tem lá seus melhores dias. Mas que não acompanha seu ocaso de modo expectante, complacente ou pendular - ou seja, já metralhado no ânimo, a oferecer uma nada convidativa trilha de malmequeres brancos. O filme manifesta-se com intensa paixão por este habitat fossilizado ao passo que esbate-a no concreto das relações entre as personagens. Para tanto, e como tanto em saldo, impressiona a concentração dos atores, pontilhada, sobretudo, em marcações físicas. E é, claro, a direção indutiva de Bruno Andrade em relação aos protagonistas, que além de agirem como as outras personagens na prova de frugalidade do ambiente quanto a possíveis interações e trocas (quantas cinefilias não nasceram da amizade ou de uma simples discussão amistosa?), sutilmente verbalizam o que o filme mais joga a favor e contra. Ele é um cinéfilo nato; romântico, seqüelado, obsessivo, boçal e doce. Ela uma atendente leiga que “apenas curte os lançamentos”, como diz a certa altura. A decadência das locadoras está aí, discretamente presente na frase. Por várias questões, a cinefilia romântica foi perdendo espaço para os consumidores de farmácia. E aí é que entra em cena o verdadeiro ângulo da questão: o vídeo. A geração do DVD pegou de herança uma indústria cada vez mais consonante ao respaldo econômico dos produtos (e diria que até patrocinadora da pirataria que tanto joga contra as locadoras mais fiéis à diversidade). Na época do VHS era possível ver um Bronson dirigido por J. Lee Thompson na mesma prateleira de um Bronson assinado Sergio Sollima, e daí vinha a troca, daí vinha o diálogo entre umas locadoras mais atuantes neste sentido de descobertas e links imediatos a outras obras de relevos díspares, muitas vezes. Daí o anacronismo visível e causador de estranhamento para quem a princípio veja o filme, a maneira como a locadora expõe tudo aquilo que poderia ser nos dias atuais. O que Ato Falho é, antes de tudo, é um filme de cinéfilos, de uma equipe de críticos e de gente envolvida no meio. Neste ponto, a lógica de Bruno para driblar as eventuais dificuldades técnicas e perspectivas rende um primeiro estágio de lucidez que, pouco a pouco, ressoará pelo resto do filme. A equipe, pois, inclusive o mesmo, são os reais personagens. A técnica, a montagem, a captação em si privilegia a confraternização associada a esta própria realização: um happening que não se furta de tecer suas idéias à base da sugestão, declarações de amor e que, ainda por cima, assimila toda a liberdade bruta das antigas locadoras de vídeo: tão impregnadas de música, de senso cooperativo (vale lembrar que a Fernanda, até vítima de certa rudeza de Matos, termina por apreciar junto dele a beleza de um filme antigo, num vislumbre de amizade crescente) de porralouquice oratória e de tipos farsescos que, no fim, celebravam/corroboravam todo o hibridismo que sempre alinhou-se à história da arte.



Rambo IV


O filme chafurda na falta de Método do diretor, que parece confortável com a idéia de filmar tomadas mal alinhavadas, em desleixo impressionante, até sem precedentes talvez no circuito de 2008, e entregá-la ao boicote da montagem (sensível como uma britadeira ao situacionismo da personagem na trama). Falta-lhe qualquer coisa de impressivo em suas impressões sobre Rambo. Não há atenção suficiente aos gestos, e desses gestos uma dimensão de fluxo qualquer, em meio também a tantos cortes meramente quantitativos. Daí acaba por não situar a personagem num tempo e espaço SEUS, mas em subordiná-lo ao tempo/espaço da maioria, enfim: ele se acumplicia com os outros que o oprimem, e não trata de entendê-lo, de situá-lo em sua diferença, como faz um gande encenador. Questão de moral, ainda e sempre. Ao picotar sua intimidade pela montagem, Stallone o expõe à fragilidade do objeto visado pelo outro que o oprime. Só vemos partes da pessoa (como numa pintura cubista), nunca a presença plena e total.

Os Donos da Noite

A filmografia de Gray é algo tão belo, tão simples; tão natural. O que percebemos em seu legado é abundância de fluência cósmica (como em todo grande artista); uma categórica alquimia da imagem/sentimento e do verbo fundida ao nascimento dos sulcos fílmicos. Os Donos da Noite pertence ao grupo mais raro das artes, aquele sobre o qual não há muito que falar. Mas somente contemplar a grandeza de algo à altura do que tem de ser ou passar. Teríamos como descrever algo a respeito da morte de Marlon Brando diante do netinho em O Poderoso Chefão? Em similar escala de candura presente no mútuo “Eu te amo” dos irmãos Grusinsky, ao final de Os Donos da Noite, contemplamo-lo em algo tão penetrante que diríamos estar diante do mesmo, por conta de sua estimulante nudez de espírito. É o mesmo que nos remete Truffaut a Um Dia no Campo, de Renoir: diríamos ser capazes de sentir cada capim do filme a tocar o rosto. E que, aqui, poderia se relacionar à excepcional cena da perseguição a Vadim, em sentido angustiante. É difícil falar qualquer coisa sobre a poesia a retocar a relação entre as personagens centrais e seu pai sem correr o risco de cometer algum crime contra a sua beleza e lisibilidade.

Filiação classicista, aproximação temática e tonal de alguns cineastas americanos dos 70’s… Será mesmo necessário recorrer a isto? Eu, por minha vez, passo o gargalo da repetição para esses megalomaníacos sem chassi cultural que escrevem para as nossas “melhores” revistas.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet


Nunca em um filme de Tim Burton sua câmera se movimentou tanto. A tônica é a perspectiva de uma exacerbação cósmica cuja natureza da matéria se revela caótica, no pressionar epidérmico da imagem. A princípio, os resultados são precisos. Tomemos de lembrança a apresentação das personagens de Barker e Anthony. Nela, assim como nos melhores trabalhos de Burton, com cinco, seis cortes e um destacado senso de concisão deambulatória, tem-se o essencial ao alinhamento do sentimento/idéia perseguido. O que torna esta cena indicadora do todo desarmônico de Sweeney Todd é a maneira como toda essa dramaturgia enxuta inerente a Burton se perfaz validamente pela flutuação das câmeras através do barco; porque esta posição a que se submete de explorar a epiderme da ação não suprime sua centralidade cênica. Ou seja: a rubrica não toma o que deveria ser encenado em conjunto progressivo de propósitos. Particularmente, não acho que os momentos menos inspirados atrapalhem a fluidez das correntes de ódio e obsessão que trespassam os pensamentos de Barker. Contudo, quando você compara cenas envernizadas como a do palanque de Pirelli com aquele de Batman Returns em que Walken triunfa soberano, vemos como este Sweeney Todd empalidece sua relevância dentro da filmografia de Tim Burton. E repito com mais ênfase a frase dita acima: com 5, 6 cortes ele é capaz de operar milagres com uma dramaturgia simples e aparentemente fácil de tão bem pensada.

Mes Petites Amoureuses

Se não vem do coração, não vai a lugar algum. Religiosamente, acredito em Jean Eustache.

La Maman et la Putain


“Todavia bloqueado pelo sistema econômico do cinema francês, Eustache passou muitos meses escrevendo La Maman et la Putain. Estava obcecado por este projeto autobriográfico e sonhava constantemente com ele. Em 1971, sem fundos e sem outra coisa para fazer, se ofereceu para montar meu filme Une Aventure de Billy the Kid. Frente à maviola, sem interromper a montagem, recitava o diálogo que havia escrito em seu grande caderno à noite interior. O roteiro era uma série de conversações (um pouco como Rohmer), e estava testando-mo, tal como havia feito com outros, observando nossas reações aos paradoxos formulados por seu herói Alexandre, que seria vivido por Jean-Pierre Léaud. O que surgia era uma sorte de anarquismo de direita, não muito distante ao das novelas de Céline. Não havia motivos ideológicos por trás de tudo isto, mas sim a necessidade de provocar própria de Eustache, e pelo fim de ‘68 é necessário ser dito que o anarquismo de direita era bastante provocativo. Também era a vingança de Eustache contra um sitema cinematográfico que o havia excluído. O êxito de La Maman et la Putain se apóia provavelmente na necessidade de Eustache e Léaud de empreender este improvável trabalho de logorréia anticonformista. Mas o filme também capturou a fala e particularmente as ações do período que seguiu ‘68 sem adoçá-las. Poderia ser dito que a força do filme vem desta mescla insolente de sentimentos de direita e esquerdismo sexual.”

Luc Moullet. Traduzido por Felipe Medeiros de Morais.

Sonho de Cassandra


Woody Allen abarca com seus planos o mal estar caracterizado pelas regras do materialismo mundano. Um álbum de imagens indicadoras da má-consciência, reatividade e raquitismo moral associável à nossa década. Em cuja criação prevalece a justeza da amortização de seus elementos críticos e a cristalização da metáfora da auto-consumição. O que impulsiona Sonho de Cassandra, antes de mais nada, é a presença graciosa de sua delicadeza e paciência para que a utilização do método aconteça naturalmente, dando a ela uma organicidade criadora, viva, o filme em constante movimento, como que realizado nos áureos tempos do cinema americano.

domingo, 15 de março de 2009

Nascido para Matar


Nascido para Matar apresenta um poder de contenção e sugestão visual altamente trabalhado em cena, que conflui na elaboração do método determinante de suas texturas e retratos bem amarrados. Há o tom de escracho de Kubrick excedendo ao burlesco das figuras militares e das situações humilhantes pelas quais passam os recrutas; a fábrica de assassinos do Sargento Hartman dada em finas camadas de domínio do quadro. Através de dinâmicos movimentos internos, o caráter humano é reduzido a manadas e a sombras recalcadas de um processo filial a um dos mais ásperos extratos da regulação social, que é, sem meias tintas, o serviço militar. Numa abordagem atenta do processo de deterioração da saúde mental, os soldados são enviados ao terror peculiar do que representa uma guerra: o cúmulo da castração do Indivíduo. E acertam o alvo a inventividade dos diálogos e dos respaldos formais do mini-documentário bolado pelo diretor para compactar todo o seu desprezo pelo episódio da guerra do Vietnã (efetivo manipulado, chacinas civis, mascarada imperialista), concentrados em distinta coordenação de fluxo.

Entre alguns períodos de excessiva busca pela narração, e desinteresse por calcificá-la na ossatura dramática, o filme mostra-se a um pé do fashionable e da pasteurização das ações. Felizmente, a um passo não comprometedor. Convém lembrar.

Planeta Terror


Não só uma homenagem ao universo exploitation como ao cinema do excesso e despretensão. Mais ainda: ao cinema da ação pura, da ação pelo movimento do inesperado; da ação pela adrenalina, da ação pela ação. Neste sentido, a nota de “ausência” do rolo que seria decisivo para o andamento da história, no tocante à união das personagens principais contra os monstros comedores de gente, só serve para corroborar o recado de Robert Rodriguez. Não veremos interesse, aqui, pela “profundidade” dramática, uma condensação dos princípios reguladores de suas personagens. Importa-lhe um registro de Terror do choque pelo choque. É um filme autônomo, na corda bamba da diluição e da reflexão anárquica do cinema a que reverencia, objetivo e extremamente potente ao que se propõe; fiel ao escoamento criativo de sua(s) atmosfera(s) como foco principal, em detrimento de qualquer outra coisa, ainda que esta venha a ser a própria lógica ou centralidade narrativa. Planeta Terror constitui um passo a frente de Um Drink no Inferno, bom filme da mesma leva de mergulho ao gênero na filmografia do diretor; verdadeiro colosso de timing e arquitetura das cenas.

Clint Eastwood


Gosto quando, em westerns, as personagens de Clint Eastwood evitam a aproximação delas. Blindam-se do contato humano durante a reconstrução prévia de um interior estilhaçado; nada nem ninguém parece merecer um depósito de confiança. A figura que apresentam aos demais é a do rastilho curto, incidido na deambulação atrevida pelo espaço, enquanto deixam se guiar pela iminência de um confronto decisivo. O fim da linha é traçado por contornos díspares, no entanto. Há excertos de heroísmo, senso de justiça, provocações gratuitas, ressentimentos e romantismo, aliciados pelas vozes de seus demônios internos, em cujas faces se sobressaem as marcas da não assimilação a um mundo dominado pela violência; ou conexo a alguma forma de convencionalismo que vete o direito à liberdade individual. Gosto destas personagens pela riqueza de sua tradução, trabalhada na simplicidade e evidência expressiva. Sobretudo pela harmonia com que se sucedem seus estados de espírito, o que dá às texturas das presenças um brilho autônomo e refulgente de unidade.

Burt Reynolds


Emprestou inegável carisma aos personagens que interpretou, sempre com muito cinismo e irreverência. Reynolds é a projeção ficcional do homem que jamais vacila, que fala com o olhar e que esbanja sorrisos de desprezo aos inimigos. Seus filmes de ação não são óbvios. Neles, ataca com armas que vão muito além do que simples pistolas ou metralhadoras. Ele é a própria arma... a arma que confunde.

sábado, 14 de março de 2009

Da Sensibilidade Dramática

Nenhum curso é capaz de garantir a fabricação do artista. Contudo, muitos atores parecem usar de sua inscrição em algum de renome para que seja convencido de modo mais amplo que realmente o são. Acho que pela proximidade à miopia de uma mídia cada vez mais parecida com um estandarte de gestos típicos aos de uma praça pública mal freqüentada, acabam esquecendo do fundamental: há que haver sensibilidade para se filtrar a essência do tônus da investida. É neste ponto que o curso, inclusive, deve potencializar o trabalho do ator. E acredito que para isso a auto-disciplina seja a média áurea da questão quando, obviamente, trabalhada ao gênio inato da pessoa durante a sua coleta de dados quotidianos. Seria algo similar a um respaldo ao treinamento natural a que recorremos com maior facilidade e empenho na infância; coisas como olhar fixamente para partes dos corpos, nuvens, estruturas arquitetônicas, variações somáticas e vocais num determinado contexto emocional, guiadas pela força do interesse na entrega ou nos fins específicos. É algo venal, oposto aos filtros de uma percepção erigida a toque de caixa, tão comum aos aventureiros da classe.

Paul Newman

Impactante presença física; síntese de sincronia na colocação gestual justaposta às graduações vocais; ator do Método, da disciplina e das minúcias. Se, em alguns papéis no começo da carreira, poderíamos reclamar de certa barreira na entrega, na contemplação de suas personsagens ao domínio emocional da ação (fato gradualmente ajustado), ganhamos em grande número nas seleções de ironias, confrontos psicológicos e nos pequenos detalhes da aragem à ousadia do gesto natural do Ator, trabalhados na maturidade.

O Sétimo Selo

Há justaposições figurativas bastante mornas do "belo" e do "crepuscular", em parcelas de oposição, que me impedem de classificar o Sétimo Selo como Obra-Prima. Como podemos perceber, a sociedade é retratada no filme como algo prejudicial. Sob o peso de uma simbologia escancarada do grotesco, temos o grande vacum de um lado; a vida em família, saudável em seus vínculos afetivos e auto-reparação de valores do outro. Embora de competente construção analógica ao longo da projeção, demonstra, neste ponto (vide a cena da bebedeira), e em outros similares, certa gratuidade na exposição de tipos. Quando lidamos com o teatro, a força da matéria reside no caráter uterino da mesma, que se insinua e se confronta, se projeta e deixa rastros, dobras, cicatrizes e pontos de correspondência. Ao contrário da exposição programática, que longe de favorecer a amortização de seus recursos cênicos à cristalização da metáfora, por ex., só realça o primeiro plano autoral, determinista, apressado no compartilhamento de suas idéias com o espectador, co-autor e co-intérprete. Mas como disse, entendo que O Sétimo Selo seja um grande filme, portador focos de gordura isolados. Porque em diversos quadrantes a perfeição chega próxima de se avizinhar: no senso plástico de Bergman, na excelência dos diálogos, na suplementação dos atores à criação da penumbra metafísica reinante em seus quadros, e na irrepreensível disposição da câmera ante os objetos perfilados em cena.

Cão Branco


O cão é o melhor amigo do homem. Paradoxalmente, a lealdade se firma por sua ausência de auto-suficiência. É dependente da criação e trato dos donos. Nesse sentido, assemelha-se bastante a um filho em idade tenra. E o animal-protagonista de White Dog nos cativa como um - embora se saiba de antemão da recusa que ele mantém por indivíduos de pele escura. Também nos primeiros minutos, é-nos lembrado que a assinatura do filme carrega um nome pelo qual o centro do seu ponto de vista sobrepõe-se em composições espartanas. Nada é de graça ou excedível no cinema de Fuller. Logo, no mais tardar, o bicho denotará toda a dimensão da irracionalidade que lhe é inerente: ficando mais do que claro que este paralelo será a pedra de toque com que o cineasta caracterizará seu conceito de racismo e propagação do mesmo. Longe do tratamento presumível de impressões expositivas sobre o auto-encerramento de um discurso marcado pelo viés da intolerância, a indagação pelo ódio racial, em White Dog, se insinua à colheita de seus males por um ser inocente, transmitidas em estado virginal. A sensação decorrente para quem observa as manifestações de violência do cão é sobremaneira desconfortável. Como sentir ódio e desprezo por alguém, que como uma criança, é incapaz de agir pelo guia da intelectualidade ou por uma construção moral, de fato, espontânea? Na superfície desta interrogação, insinuam-se as chaves dadas pelo cineasta ao combate pela raiz deste e de outros grandes erros da humanidade. Dramaticamente, dotada da mesma magnetização dos melhores trabalhos de Fuller: seja na qualidade de observação, ausência de efeitos fáceis, associações ou timbres de enquadramento (providos de uma câmera que, como em talvez nenhum outro cineasta, à maneira de cordas musicais, vibra ao apelo dos afetos).