
O cão é o melhor amigo do homem. Paradoxalmente, a lealdade se firma por sua ausência de auto-suficiência. É dependente da criação e trato dos donos. Nesse sentido, assemelha-se bastante a um filho em idade tenra. E o animal-protagonista de White Dog nos cativa como um - embora se saiba de antemão da recusa que ele mantém por indivíduos de pele escura. Também nos primeiros minutos, é-nos lembrado que a assinatura do filme carrega um nome pelo qual o centro do seu ponto de vista sobrepõe-se em composições espartanas. Nada é de graça ou excedível no cinema de Fuller. Logo, no mais tardar, o bicho denotará toda a dimensão da irracionalidade que lhe é inerente: ficando mais do que claro que este paralelo será a pedra de toque com que o cineasta caracterizará seu conceito de racismo e propagação do mesmo. Longe do tratamento presumível de impressões expositivas sobre o auto-encerramento de um discurso marcado pelo viés da intolerância, a indagação pelo ódio racial, em White Dog, se insinua à colheita de seus males por um ser inocente, transmitidas em estado virginal. A sensação decorrente para quem observa as manifestações de violência do cão é sobremaneira desconfortável. Como sentir ódio e desprezo por alguém, que como uma criança, é incapaz de agir pelo guia da intelectualidade ou por uma construção moral, de fato, espontânea? Na superfície desta interrogação, insinuam-se as chaves dadas pelo cineasta ao combate pela raiz deste e de outros grandes erros da humanidade. Dramaticamente, dotada da mesma magnetização dos melhores trabalhos de Fuller: seja na qualidade de observação, ausência de efeitos fáceis, associações ou timbres de enquadramento (providos de uma câmera que, como em talvez nenhum outro cineasta, à maneira de cordas musicais, vibra ao apelo dos afetos).

