sexta-feira, 20 de março de 2009

Rocky Balboa


Simples, direto, enxuto; nunca pendendo sua pegada mais idiossincrática a ponto de atravessar a trama em esforço de barra (a salvo dois ou três tons floppy carregados em falas referentes à grandeza dos sentimentos verdadeiros), ou esbanjando uma auto-importância fungante. O que nesses tempos de superafetação ou franca apatia seletiva consegue tornar o filme ainda mais simpático do que ele o é. Rocky projeta como nenhuma outra peça na carreira de Stallone seu caráter, posicionamento como artista e jeito de ser nas descrições do cotidiano do ex-pugilista: homem cuja maior ambição é criar lastros de honra, coerência, acessibilidade aos “seus” e coragem na provação de sua grandeza. São aspirações muito vívidas, cativantes, daquelas que só se fazem valer quando alguém as viveu profundamente, vincando-se muitas marcas em si. E que exercem em Stallone uma maneira bem resolvida, e por isso mesmo orgânica/concisa, de dar voz e postura à sua personagem-projeção nesta dialética contra o status quo da entrega e da impessoalidade do homem. Através da uma ressonância ética pendente ao romantismo, o entorno formal de Rocky Balboa (principalmente os filtros e a concessão de tempo e luz aos atores) tende a maximizar o que em palavras talvez fosse impossível de se alcançar sem cair na irregularidade da força atmosférica que o toma. Embora a isto não esteja imune a questão do excesso, porque é um filme assinado por quem não sente vergonha por suas preferências menos próximas à elegância da discrição. O que, entre parênteses, talvez o torne ainda mais verdadeiro ou condizente, melhor dizendo. Aqui, também, e sobretudo, prova-se com bastante pertinência que a encenação no cinema é feita por etapas de conciliação; psicologia e presença, ou corpo e alma, na síntese do gesto perspectivado em quadro. Mise-en-scène é atenção ao sismógrafo da superfície dos objetos. Ao contrário de Rambo IV, a intuição comanda em Rocky Balboa. Um tanto melhor.