Após os créditos iniciais, somos levados à breve despedida de olhar de uma senhora para um castelo no alto de uma montanha, em meio à tempestade de neve. Luzes e recordações ao fundo. É natal. Logo a seguir, sua neta pede para que lhe conte uma história de ninar. Uma história relacionada ao homem responsável pela “neve”, sugerido pela avó. Ainda não recomposta das recordações mais íntimas, ela pondera, deixando soltar um suspiro e, finalmente, atende ao pedido da garotinha. Conta-lhe a história de Edward Mãos de Tesoura, que secretamente fora um grande amor do passado. A lição que Kim deseja transmitir a sua neta, em proveito do ensejo, está ligada a uma virtude até certa altura esquecida num mundo cada vez mais prático e objetivo. E que fundamentalmente a fez se apaixonar pela personagem de Edward: a conservação da bondade humana. Tendo, por conseguinte, a preservação de sua identidade.Embora aspectos fundamentais dos contos de fadas sejam adequados, em primeiro plano, ao manejo de ambos (narradora e autor) quanto à maneira de dar forma à história – personalizações de reconhecíveis características humanas, uma ambiência pincelada em marcante sintonia ao acabamento da mensagem sugerida, etc.-, uma questão de forte desempenho atrativo (e de assumido alvo extra-diegético) é ateada durante boa parte da especulação narrativa; complementando tal ordenação, de uma visão particular, frente ao mundo que lhe cerca: - Colocar-se numa posição de mimetização de valores puramente aceitáveis a um mecanismo social, invariavelmente inóspita a qualquer chance de manutenção de uma identidade própria, não seria na verdade um faz-de-conta infinitamente maior do que qualquer outro de ordem fictícia? Para Kim o humanóide é um amor inesquecível, para Tim Burton uma razão para se fazer cinema. E isto fica bem evidente ainda nos primeiros instantes de projeção.
O amor entre os dois será respeitado, na íntegra. Nenhuma decisão que, exclusivamente, lhes diga respeito será questionada. Ou abordada a favor de interesses, em absoluta conotação egoísta, da parte do autor. A fonte básica de toda a leveza e dos riquíssimos detalhes que o filme recompensa aos seus espectadores reside também aí; no fato de que as críticas sociais são fortes, até mesmo recorrentes, mas é a integração entre a autonomia ficcional e o posicionamento crítico-artístico que será cultivada (numa interação genuína de funcionalidades, sem favorecimentos à parte).
Edward (Johnny Depp, inclassificável) é um humanóide na tenra flor da idade; habituado a viver em completa solidão, desde a morte de seu criador (Vincent Price) no castelo do mesmo – motivo pelo qual ficou incompleto, sem as mãos. Em determinada manhã uma vendedora, indo mal no trabalho, decide apelar para aquela residência isolada do resto das casas no subúrbio em que mora com o marido e seus dois filhos, sendo um deles Kim. Enquanto não consegue esconder o deslumbramento proporcionado pelas figuras esculpidas em grama no jardim, feitas por Edward, seus reflexos indicarão a espreita de alguém por entre as brechas de uma janela bastante danificada. Dirige-se até o encontro dessa pessoa, que aparenta ser tímida e reclusa (o que se confirmará em seguida). Entrando por conta própria na residência, pela ausente resposta aos seus chamados, Peggy descobrirá no segundo andar a frágil figura do rapaz. Profundamente tocada pela solidão deste, ela decide levá-lo até sua casa, naquela que seria a primeira visita dele ao “mundo.” O amor em questão, inicia-se a partir do primeiro momento em que Edward é apresentado a Kim, através de seu retrato estampado na estante. Um amor à primeira vista, semelhante ao de um menino por uma coleguinha de turma em seu primeiro dia no colégio. Mesmo porque ele não deixa de ser uma criança, no esplendor da espontaneidade de seus sentimentos. Ou ainda em seu posicionamento diante do mundo, de forma absolutamente táctil.
Findas as apresentações, conviveremos com a rotina de Edward em sua nova vida. Não só de casas em tons pasteis (usados para construírem uma idéia de sadio) e de belos gramados alimentam-se os vizinhos dos Boggs. A idéia de consumo transcende seu lado material, atingindo o usufruto de qualquer que seja a novidade na redondeza a fim de não serem passados para trás. Ou, especificamente, serem classificados como “diferentes.” Assim, o instigante hóspede, por causa de uma curiosidade absolutamente carnal, vinculada a mulheres no cio, fará com que ele rapidamente se torne uma figura ilustre. Lembrando a relação de domínio e dependência da alta sociedade inglesa para com a personagem do Homem-Elefante, só que ao invés de usarem-no como um sensor de suas possíveis entregas de sentimentos falsos – como observou com acuidade Serge Daney a respeito daqueles - os moradores de “Subúrbia” o visitarão pelo simples fato de que alguém já o fez/faz, somente.
Findas as apresentações, conviveremos com a rotina de Edward em sua nova vida. Não só de casas em tons pasteis (usados para construírem uma idéia de sadio) e de belos gramados alimentam-se os vizinhos dos Boggs. A idéia de consumo transcende seu lado material, atingindo o usufruto de qualquer que seja a novidade na redondeza a fim de não serem passados para trás. Ou, especificamente, serem classificados como “diferentes.” Assim, o instigante hóspede, por causa de uma curiosidade absolutamente carnal, vinculada a mulheres no cio, fará com que ele rapidamente se torne uma figura ilustre. Lembrando a relação de domínio e dependência da alta sociedade inglesa para com a personagem do Homem-Elefante, só que ao invés de usarem-no como um sensor de suas possíveis entregas de sentimentos falsos – como observou com acuidade Serge Daney a respeito daqueles - os moradores de “Subúrbia” o visitarão pelo simples fato de que alguém já o fez/faz, somente.
O exuberante talento do rapaz, direcionado à jardinagem, faz com que vários moradores requisitem o seu trabalho. Edward não exige mais do que biscoitos e uma companhia como pagamento. Até que, em outro certo dia, ele resolve dar um corte ao seu jeito nos pêlos convidativos de um poodle, que passara despretensiosamente por perto. A dona do cãozinho se surpreende com o resultado e, como não poderia tardar, a notícia se espalha pelos quatro cantos. Em menos de 24 horas, uma espantosa fila de mulheres com seus cães dobra a calçada da família Boggs. Abandonando a esportiva de dar passagem à próxima “cliente”, Joyce (a principal entusiasta pela “caçada” inicial ao misterioso hóspede) lhe pede veementemente para que corte as suas madeixas. Burton não deixa de fazer uso de um inteligente humor. Por mais que o rapaz detivesse um dom para a jardinagem, e inúmeras outras tarefas, definitivamente os cortes de cabelo não seriam um forte. Mas, ainda assim, a busca constante pela ostentação faz com que a mulher se esbalde de prazer (fora pioneira nesse quesito), inclinando as outras a desejarem o mesmo. Diante dessa requisição constante, Edward é induzido intensivamente a encontrar um meio de sustentar-se. Sua tranqüila vida social, então, deixa de ser uma opção. E o amadurecimento lhe vem de forma tão inevitável quanto traumática.
Quando, por fim, as facetas dos núcleos principais e secundários são escalonadas, Kim (Wynona Ryder, deslumbrante) se insere à trama decisivamente. A relação inicial de indiferença direcionada a Edward regula excelentes instantes do filme. É notável a entrega de Burton aos detalhes. Muito da escolha final de Edward pelo isolamento tem a ver com inúmeros momentos que, aparentemente, indicariam apenas observações de episódios do seu cotidiano. Mas uma análise mais aprofundada revela a potencialidade dramática que uma simples cena de ciúmes oferece: numa ida ao centro da cidade para afiar as tesouras, ele avista Kim aos beijos com o namorado Jim. Eles se abraçam, e a certeza de que nunca levaria uma vida normal daquele jeito é sugerida pela tristeza do olhar estendido aos dois. Enquanto Jim a segura firmemente, resta ao retardado (como é tratado pelo rapaz) providenciar um tratamento de afiação para parte de seus membros (...) Pela primeira vez durante a projeção, a tristeza o toma verdadeiramente. Ele tem noção deste absurdo. Ou como na cena em que Kim dirige-se até Edward, envergonhada por si mesma e por seus amigos ao terem, praticamente, iniciado os problemas em relação à comunidade - quando este é pego quando tentavam roubar a casa do pai pão-duro de Jim em prol da compra de uma caminhonete nova. Nela, a ingenuidade de Edward se revela extremamente complexa: sabemos também pela primeira vez que ele é capaz de mentir, pois mentira ao não ter revelado que sabia muito bem de qual casa se tratava. Kim o pergunta, então, sobre o motivo de ter participado daquilo. A resposta é fulminante: “Porque você me pediu”.
Quando, por fim, as facetas dos núcleos principais e secundários são escalonadas, Kim (Wynona Ryder, deslumbrante) se insere à trama decisivamente. A relação inicial de indiferença direcionada a Edward regula excelentes instantes do filme. É notável a entrega de Burton aos detalhes. Muito da escolha final de Edward pelo isolamento tem a ver com inúmeros momentos que, aparentemente, indicariam apenas observações de episódios do seu cotidiano. Mas uma análise mais aprofundada revela a potencialidade dramática que uma simples cena de ciúmes oferece: numa ida ao centro da cidade para afiar as tesouras, ele avista Kim aos beijos com o namorado Jim. Eles se abraçam, e a certeza de que nunca levaria uma vida normal daquele jeito é sugerida pela tristeza do olhar estendido aos dois. Enquanto Jim a segura firmemente, resta ao retardado (como é tratado pelo rapaz) providenciar um tratamento de afiação para parte de seus membros (...) Pela primeira vez durante a projeção, a tristeza o toma verdadeiramente. Ele tem noção deste absurdo. Ou como na cena em que Kim dirige-se até Edward, envergonhada por si mesma e por seus amigos ao terem, praticamente, iniciado os problemas em relação à comunidade - quando este é pego quando tentavam roubar a casa do pai pão-duro de Jim em prol da compra de uma caminhonete nova. Nela, a ingenuidade de Edward se revela extremamente complexa: sabemos também pela primeira vez que ele é capaz de mentir, pois mentira ao não ter revelado que sabia muito bem de qual casa se tratava. Kim o pergunta, então, sobre o motivo de ter participado daquilo. A resposta é fulminante: “Porque você me pediu”.
Edward, pois, detém alguma visão crítica; contudo a utiliza para o que entende como fazer o bem, fazer as pessoas felizes. Aos poucos, esbarrará em alguns entraves de ordem material e humana. E em seguida, todo o encantamento pelas novidades de que fora privado será diluído numa conversão profunda de ressentimento e impotência, em relação às outras pessoas. Não há espaço para a diferença. Num mundo calculado será presa fácil, justamente por não ser alguém propenso ao oportunismo e aos cálculos vivenciais. Ele foge novamente para seu castelo... Longe de um tratamento fácil (o mundo é mau, não merece Edward), Burton traçará um panorama conciso entre aqueles que se entregaram à condição de serem estereotipáveis e aqueles que lidam subjetivamente contra esse domínio acéfalo das normas comportamentais. Para depois balancear a importância de outros Edwards ao nosso convívio. O policial negro, que o ajuda a se safar durante sua fuga aos moradores, não deixa de ser um Edward; Kim e sua mãe Peg não deixam de ser um Edward; John e Kevin (pai e irmão de Kim, respectivamente) também não deixam de ser um Edward, por mais que apresentem fortes ecos da vida em rebanho.
Sabe-se que o filme apresenta uma carga considerável de dados autobiográficos do cineasta. Sabe-se que Burton “tomou” posicionamentos mais maduros de enfrentamento à sociedade em obras posteriores. Mas não deixa de ser útil recordar, mais uma vez, a proposição deste mesmo cinema: a preservação de si mesmo. A Burton essa busca pela tal concerne em várias direções. A princípio, aquilo que se torna caro a este cinema não é a perfeição de uma identidade propriamente pessoal, mas uma doação constante a ela. Portanto, todas as “limitações” e grandes feitos (geralmente as coisas mais simples possíveis) das personagens serão, coerentemente, abordadas com o mesmo interesse. Por sinal, essa resolução dramática é aplicada com maior disposição em Edward Mãos de Tesoura e no seu Remake para Planeta dos Macacos – filmes relativamente distantes na ainda breve filmografia do cineasta. Aqui, não se saberá ao certo a respeito do paradeiro de Edward. Não será julgado o nível de acerto ou reprovação pela decisão de não ter participado novamente do convívio com seus “semelhantes.” Isso não importa a Burton. O amor por Kim, a dura decisão ligada ao bem-estar deste amor em si, é o que se foca. Um amor abnegado, completo pelo simples sentimento de estima despertado no outro. Um amor que, a despeito de sua não-materialização, perdurou intacto no coração da senhora que nos conta a história de alguém inesquecível, de uma lição inesquecível.
Há uma cena em que Edward é questionado por duas espectadoras de um programa televisivo - quando sua fama rende boa repercussão local - sobre se o fato de ser normal, caso conseguisse uma cirurgia reparadora, não o faria perder todos os atrativos. Antes que ele respondesse, Peggy, que o acompanha, é enfática: - Não, ele sempre será especial. Essa colocação traduz à perfeição a estima do cineasta pela personagem e a sua decisão quanto à abordagem final: resta-nos contemplar o pranto gélido, imenso, verdadeiro, único (porque é uma decisão exclusivamente dele, e isso só reafirma o respeito às diferenças pregado durante todo o filme) de um castelo de solidão sobre um cacho de lindas flores em destaque em seu jardim.



