
I'm not out to win prizes - that's for dogs and horses
Klaus Kinski, um dos atores mais intrigantes da história. Quer seja por sua técnica, quer seja por sua personalidade irascível. E ainda mais em se tratando da precisa junção que, estruturalmente, conseguiu estabelecer entre ambas. Um artista glorificado e amaldiçoado pela vontade incontrolável de potência executiva; impulsionou uma verdadeira obsessão pelos detalhes para cada ínfimo esgar de significância em seu desdobramento ficcional. Sobretudo, a serviço de um transbordar violento e respeitoso às idiossincrasias de sua pessoa comum: o pathos como mote da propulsão fenomenológica do estar (em cena).
Deteve uma das assimilações mais zelosas voltado às marcações de que fora submetido. Mas, de longe, insinuou-se como aquele grande espírito perquiridor de seu ofício, no cinema, a compreender o perigo estabelecido pelo regimento técnico em detrimento da intervenção passional do ator. Agiu, quanto a este aspecto, na essência, no halo, de quem compra uma causa irremediavelmente dispendiosa. A típica assimilação dos nulos, sem nenhum propósito mais lúcido de aplicação dramática para além do ilustrativo, nunca o seduziu. A qual, ainda, indica um cumprimento, não um umbral de submissão.
Entusiasta do rebuscar sentimental em cena, em total oposição a uma mera transposição de sentimentos re-trabalhados sob manipulação, kinski bem sabia que o que realmente interessasse ao diretor passaria por uma triagem durante a montagem. Excessos, certas contenções e outros deslizes isolados são potencializados a uma mesma oferta de espontaneidade. Os elementos que fugissem à verdade construída em cena pelo autor, certamente não seria um fardo. E no cinema esta consciência é um dos maiores, senão seu grande trunfo em termos de potencialidade dramática.
Por esta margem exergética, Kinski estimulou seu trabalho de artilharia (o primeiro plano cênico) a um envolvimento máximo de concentração em torno de suas anotações mais pessoais, aplicando-o como intermediário direto de uma entrega calculável, mas aquém de qualquer progressão formuláica: o condicionamento da interpretação a moldes de enfrentamentos circunstanciais, na culminância afetivo-pessoal, de quem a homologa por elaborações assim auto-suficientes, porque cristalinas e impávidas no reflexo de si mesmo.
O que, entre parênteses, denota a extrapolação de atos perfeitamente críveis às fixações de suas crias à vida real do ator. Daí tamanha transparência de dispositivos, e tamanha dificuldade à primeira vista de se transpor em palavras os mesmos.
Every gray hair on my head I call Kinski
Interpretando aos berros, movimentando-se feito um diabo delirante; ainda se fazendo valer dos traços sinistros de sua fisionomia, Kinski enquadrou-se em hipnóticos papéis de vilões e homens atormentados existencialmente, sendo diversas vezes apontado como um modelo dostoievskiano de obsessão. Da intransigência despótica a uma docilidade quase infantil; dos gestos espalhafatosos, de quem é inteiramente dono de si, à exposição de um estado corporal psicologicamente desprotegido. As mudanças radicais de temperamento das personagens que interpretou espantam pela clareza vivencial de um homem totalmente condicionado às observações do trivial a que retrata em movimento de transcendência.
A acuidade do olhar de Kinski à condição humana – tão direta quanto as nossas lembranças mais íntimas, em brutal honestidade de exposição - poderia criar incontestes tratados sobre a arte de interpretar; pôr em xeque as baratas convenções de legitimação curricular do intérprete. No entanto, renega qualquer condição didática. Resgata primeira e profundamente o fundamento básico para todos aqueles que detiverem alguma aspiração artística: a incessante luta pela liberdade de saudar a vida, em todas as suas facetas miseráveis e sublimes, ao seu modo.
Não à toa, associou-se mais diretamente ao seu melhor inimigo, Werner Herzog - diretor excepcionalmente curioso quanto às possibilidades dramáticas pelas bases da personalidade inata de um ator. Ambos não se comoviam por fundamentos condicionantes a uma execução enrijecida, convencional. Uma impulsão cênica seria o ponto de interseção entre encenador e objeto. Mas o confronto, porém, não lhes interessava. Costumavam ir mais a fundo, ao bombardeio.
Herzog, ao longo da carreira, induziu seus atores não à perfeição, mas à naturalidade. No caso de Kinski, tal qual um Fritz Kortner, as induções foram marcadas pelo completo terror psicológico, aguçando-lhe ainda mais a instabilidade emocional. E, em diversas ocasiões, filmando-o sem algum aviso prévio para obter um resultado inesperado, excepcional. Um caminho simples, direto e à beira da fatalidade: de Kinski a Kinski.
I’m not your Superstar
Dono de uma inteligência rápida em seu timing, ele dominou qualquer cena de que participou nos filmes do cineasta; capaz de sincronizar seus movimentos aos da câmera como nenhum outro (neste ponto, ultrapassando a filmografia Herzog para toda a sétima arte); capaz, antes de tudo, de mostrar-se atrativo – algo que infelizmente pouco se tem visto nesses dias tão grotescamente lindos. Ao mesmo tempo, se muito se fala no executor fulminante, artilheiro, pouco se fala a respeito de suas pontes dramáticas.
A atenção e dedicação ao trabalho daqueles que o cercavam é um capítulo à parte, curiosamente mais ilustrado nas menores produções; num respaldo de expressões suficientemente elaboradas e ao mesmo tempo incontidas, em evidente artifício de se evitar algum desvio de concentração no parceiro. Em prol, claro, de um melhor aproveitamento próprio: levando os outros a uma mesma metodologia de trabalho. Mas o ator nem por isso age de forma leviana para com a unidade de conjunto, ou embriagada por uma certidão de criatividade. A mesma naturalidade angariada defronte à câmera pelo Kinski autodidata, nu, segue-se no tête-à-tête com o kinski aplicado aos portos seguros técnicos.
A complexidade de cada nuance técnica realmente pertencente à sua classe - as modulações, as flexões, a fluência expressiva, as variações gestuais etc. -, demonstra-se em domínio mais do que convincente. A capacidade de se flutuar por registros tão brutais, nos pólos antagônicos da artilharia e da escadaria, só comprova a eficácia de um modo sui generis de interpretação, fincado numa pluralidade de gêneros já presente na terminologia do termo “maestria em cena”. Se nela a verdade do autor é objetiva por excelência, a do ator é ainda mais. Contudo, até chegar a uma ilha de edição.
A postura de Kinski foi, antes de tudo, simpatizante ao amparo do ator a si mesmo. Uma vital imposição do ator como elemento exponencial e não o oposto, de se configurar à maneira de algo entre outros mais, permitindo-lhe o desfrute de uma realidade cênica radializada em sua própria identidade; portanto insubstituível, válida e justa. E que tange em congruência ao fato de, em oportunas entrevistas, ter dado tanto valor às anotações diárias:
“Atualmente, por dado tempo, tenho me deixado levar pela idéia de abrir uma escola de cinema. Mas se eu viesse a inaugurar, você só estaria apto a aprender uma forma de aplicação depois de ter caminhado por seus próprios pés. Digamos que de Madrid a kiev, numa distância de cinco mil km. Enquanto você caminha, escreve. Escreva a respeito de suas experiências e me entregue os cadernos”.
All I Need is love
Não duvida-se...