sexta-feira, 20 de março de 2009

Ato Falho

E eis que em meio a tantos bric-à-bracs amorfos de emulação passadista, quando não televisiva, quando não pseudo-verité, surge-nos um filme dado aos fulcros dramáticos e à transparência de dispositivos no universo de curtas metragens brasileiro; trabalhando ao nível da essencialidade e da escala, simplesmente. Ato Falho parte do concreto dos movimentos quotidianos frente a uma ilha gradativamente esquecida, a vídeo-locadora, para pontuar a investida declaração de amor à mesma, que como sabemos não tem lá seus melhores dias. Mas que não acompanha seu ocaso de modo expectante, complacente ou pendular - ou seja, já metralhado no ânimo, a oferecer uma nada convidativa trilha de malmequeres brancos. O filme manifesta-se com intensa paixão por este habitat fossilizado ao passo que esbate-a no concreto das relações entre as personagens. Para tanto, e como tanto em saldo, impressiona a concentração dos atores, pontilhada, sobretudo, em marcações físicas. E é, claro, a direção indutiva de Bruno Andrade em relação aos protagonistas, que além de agirem como as outras personagens na prova de frugalidade do ambiente quanto a possíveis interações e trocas (quantas cinefilias não nasceram da amizade ou de uma simples discussão amistosa?), sutilmente verbalizam o que o filme mais joga a favor e contra. Ele é um cinéfilo nato; romântico, seqüelado, obsessivo, boçal e doce. Ela uma atendente leiga que “apenas curte os lançamentos”, como diz a certa altura. A decadência das locadoras está aí, discretamente presente na frase. Por várias questões, a cinefilia romântica foi perdendo espaço para os consumidores de farmácia. E aí é que entra em cena o verdadeiro ângulo da questão: o vídeo. A geração do DVD pegou de herança uma indústria cada vez mais consonante ao respaldo econômico dos produtos (e diria que até patrocinadora da pirataria que tanto joga contra as locadoras mais fiéis à diversidade). Na época do VHS era possível ver um Bronson dirigido por J. Lee Thompson na mesma prateleira de um Bronson assinado Sergio Sollima, e daí vinha a troca, daí vinha o diálogo entre umas locadoras mais atuantes neste sentido de descobertas e links imediatos a outras obras de relevos díspares, muitas vezes. Daí o anacronismo visível e causador de estranhamento para quem a princípio veja o filme, a maneira como a locadora expõe tudo aquilo que poderia ser nos dias atuais. O que Ato Falho é, antes de tudo, é um filme de cinéfilos, de uma equipe de críticos e de gente envolvida no meio. Neste ponto, a lógica de Bruno para driblar as eventuais dificuldades técnicas e perspectivas rende um primeiro estágio de lucidez que, pouco a pouco, ressoará pelo resto do filme. A equipe, pois, inclusive o mesmo, são os reais personagens. A técnica, a montagem, a captação em si privilegia a confraternização associada a esta própria realização: um happening que não se furta de tecer suas idéias à base da sugestão, declarações de amor e que, ainda por cima, assimila toda a liberdade bruta das antigas locadoras de vídeo: tão impregnadas de música, de senso cooperativo (vale lembrar que a Fernanda, até vítima de certa rudeza de Matos, termina por apreciar junto dele a beleza de um filme antigo, num vislumbre de amizade crescente) de porralouquice oratória e de tipos farsescos que, no fim, celebravam/corroboravam todo o hibridismo que sempre alinhou-se à história da arte.