
As telas já serviram de trampolim a uma grande manada cabotina, rumo ao pretendido culto. Muitos não passavam de infelizes aproveitadores, paus-mandados da fama. Mas havia, no meio da canalha, gente de empolgante insolência substancial; consciente de sua potencialidade, disposta a ir além dos resultados já obtidos.
E Orson Welles, foi sem dúvida o maior expoente desta linhagem. Sujeito que, com a cara e a coragem de seus vinte e cinco anos, escancarou ao mundo cinematográfico um propósito incisivamente extravagante: tornar-se, de modo polivalente, o principal gênio a ele associado.
Antes, havia viajado à Europa no sentido de seguir uma carreira artística. Para tanto, não mede esforços, muito menos inverdades acerca de seus ‘feitos’.
Volta aos Estados Unidos e, nunca abandonando os palcos, nem as confusões promocionais (vide o épico episódio da invasão marciana a New York, no primeiro período de envolvimento com o radialismo), ganha notoriedade suficiente para Hollywood convidá-lo a dirigir um filme – tendo, antes, realizado os curtas Hearts of Age e Too Much Johnson.
O resto da história todo mundo conhece... Citizen Kane.
A despeito das inovações técnicas e narrativas, o longa-metragem, como se não bastasse, brinda os anais da história com um de seus atores mais fascinantes. O estilo é peculiar, na lida com expedientes aparentemente inconciliáveis.
Welles procura explorar lições dramáticas de uma escola fundamentalmente teatral, nas melhores e piores inspirações do termo, até iniciar uma progressiva reprodução emocional daqueles representados às raias do ‘documental’. Lições cênicas centralizadoras, referentes à apreensão contemplativa do espectador, em inclinação íntima a do teatro elisabetano, aglutinam-se à linguagem mais dinâmica, e proporcionalmente mais em conta com a reprodução da personalidade dos atores, do cinema.
A proposta reclina-se a uma ressonância afirmativa de caráter, no ponto final do processo:
Com efeito, duas características do período renascentista inglês são recorridas com notabilidade; sendo a primeira uma magnetização do público em considerável vinculação ao arrebatamento poético, e à sugestão das palavras (tonal, por conseqüência) quanto à expressão e situacionismo da personagem dentro do enredo; a segunda uma disposição do ‘tableau’ como grande plataforma de cumplicidade entre o ator e seus espectadores.
Simultaneamente, formam um sólido contraponto crítico ao simulacro de posturas tomado durante as ações iniciais. Evidenciam, também, o caráter transformista da jornada, até diluírem-se pouco a pouco a favor de uma denominação comum, efetivada pela duplicidade pedida pelos tipos mais freqüentes da unidade temática do artista.
Acontece que todo o receituário estratégico é posto abaixo pouco a pouco, a partir de uma série de estouros combustíveis, insuspeitadamente passionais. Nesse intercâmbio de projeções, da acidez do artificialismo voltado inicialmente às atitudes das personagens ao extremo das pulsações sentimentais, será encontrada no paralelo da espontaneidade a redenção para as tais.
Na maioria dos papéis, encarnava megalomaníacos devastados por um tipo inevitável de solidão, advinda de atos de dominação e poder. Homens daqueles capazes de “derrubar qualquer semelhante e, ainda, sapatear em cima dos cacos”. Tratados, todavia, com rara lealdade de interesse por Welles. Longe de serem limitados a decalques de uma visão mono angular/discursiva, são retratados como reflexos de extrema complexidade da sociedade a que representam.
Os sintomas fulminantes desse isolamento, da busca excitantemente inescrupulosa pela Glória, são em primeira ordem captadas pela dinâmica do ator. A queda do mito a ser construído parece inevitável. Todo canal expressivo das personagens insinua-se a esconder esse segredo, que é conhecido, a princípio, por todos nós.
O olhar de Welles, em cena, é vago, febril, delirante e, acima de tudo, ausente dos demais olhares; os gestos, ainda que emulem certa denúncia à insegurança do porvir, não perdem a majestade: conservam-se tão naturais quanto os seus velhos hábitos. E nem mesmo quando são tomados lentamente pela convulsão da ruína, vêm a perder em exuberância, ou no repúdio à queda nela vinculado intuitiva e obsessivamente.
Já a sua voz, supracitada anteriormente, é potencializada ao máximo como agente delator das perturbações psicológicas das composições. Aos poucos, magnetiza os demais canais expressivos ao élan da demência. Bruscas variações de modulações vocais e um fascinante trabalho de flexão verbal são executados sem quaisquer sobressaltos levianos.
Toda a atenção para os elementos, inspiradora em tamanha objetividade e senso dramático de colocação, consegue evitar que se esbarre na mecanicidade. Aqui, ostensiva em espreitadas, devido ao caráter over da matriz (grave) solicitada, sobre a qual o sugestionamento se funda.
O resultado dessa empreitada, por assim dizer, é uma verbalização que antecipa, radicaliza e aflora as suas incorporações gestuais:
Numa intensidade progressivamente sobressaltada, em cuja mastigação léxica insinua-se uma verdadeira insurreição de múltiplas afetações, de ordem emocional, convertidas em sintomas físicos; no exato momento em que previsão crepuscular das personagens atenua-se à distância da pessoalidade de cada qual, e todas as considerações factuais passam realmente a ser sentidas na pele.
A perfeição, em motivação político-postural, almejada pelas personagens, dispõe-se à inviabilidade, obviamente. Mas resgatar a real espontaneidade de batismo, não seria de todo difícil. E ela os redime, nesse sentido. Um recado que, tanto quanto, corresponde à postura do ator.
F for Fake, por exemplo, é uma ode ao espírito cabotino em todas as facetas lúdicas e rupinas possíveis. Na qual, Welles toma de assalto a inicial busca pela saga do falsário Elmyr de Hory, ao final, para divagar sobre si. E a desdizer minutos depois, de um modo sádico, tudo aquilo que expusera de mais “franco”.
O discurso não seria outro senão uma graciosa aceitação pelo que se é. Em seu caso, um mentiroso por virtude, individualista clássico e obcecado pela valorização da vida através de manifestações naturais, ou seja, invariavelmente suas. Somente lhes pertencente, ao gosto wellesiano, pela forma de exposição febril e irreversível do mergulho ao âmago do eu.
Contudo, de Charles Foster Kane a Falstaff, passando por Michael O’Hara, extremos opostos em número de “mergulhos”, ninguém escapará ileso. Afinal, a perspectiva do cineasta não era das mais pias em relação à disposição dos seres humanos, no geral, a cumprirem suas exatas vocações. Ou, conforme o caso, permitirem as de outrem.
Em descumprimento, o mundo é infestado de mesquinharias espirituais capazes de reduzir homens a sombras recalcadas de tudo que não puderam, e deveriam, ser. O fruto da Maldade se dissemina na onipotência do espírito vacum. Dificilmente, a sua negação, a liberdade em domínio cotidiano, teria como germinar neste universo de relações policiadas (e aprovadas ou não) pelo próximo.
Lembremos de Otelo: desfigurado pela auto “prestação de contas” a uma sociedade muitas vezes imperdoável à suscetibilidade do indivíduo a qualquer baixa moral; muitas vezes desdenhosa a sinais de fraqueza e, por conseguinte, ao comprovante humano.
Daí, da santa bovinidade, é que entra em cena a obsessão das personagens pela dominação intelectual, material, física, espiritual etc. e pelo Poder como triunfo de tais investidas – na forma expressa desse cometimento. E lembremos novamente de Falstaff, agora em associação direta ao ator: a personificação inconteste da marginalidade imposta a quem tenta burlar as convenções do meio.
O grande ator de cinema revela-se pela fluidez de sua percepção interpretativa e pela capacidade comunicativa de tocar prosaica, silenciosa e gestualmente, como indispensável contador de histórias que se configura, o público. Chegando-se ao ponto em que este não tenha de lutar contra obstáculos que venham a desfocá-lo como objeto principal, a missão pode ser assinada.
E é incrível como pouquíssimos consigam atender a uma obrigação tão clara quanto simples. Seguramente, ninguém dispensou melhor tratamento do que Orson Welles quanto a esta verdade incontentável, ignorada por 90% dos profissionais ‘especializados’ e subservientes ao pior sentido de humildade.
Feliz daquele que não se contenta em servir de triste punheta executiva a quem quer que seja; bancando o preço do que vier pela frente.