quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Vol II


Sempre tentei considerar os atores como pessoas reais cuja realidade era preciso mostrar um pouco num dado roteiro, em que eram obrigadas a fazer um certo número de coisas, mas levando em conta o que elas eram realmente. Se a pessoa tinha cabelos loiros, bem, tentar dizer que os cabelos loiros são bonitos; se, ao contrário, tinha cabelos pretos, não dizer... Uma coisa ou outra. Foi por isso que Brigitte Bardot gostava de nós, porque na época em que eu era crítico ela tinha aparecido em E Deus Criou a Mulher e fora muito criticada por seu modo de falar em comparação a outras atrizes. Dizia-se: “Ela não sabe representar”, “Ela fala com afetação”... E eu tinha dito: “Mas esse falar afetado, que é seu jeito de falar, é muito mais verdadeiro que muitas formas de falar que se pretendem ‘corretas’ e que são, na verdade, muito falsas e acadêmicas”. Portanto, tudo consistia simplesmente em tentar acreditar. E eu gosto de me esforçar por fazer com que as coisas pareçam autênticas, que aquela mulher ou aquele cara possam dizer aquilo que, se os encontrássemos, não parecesse extraordinário, mas realista. Ou seja... Respeitar totalmente a pessoa. Mesmo em Alphaville, não tive dúvida em fazer Eddie Constantine dizer uma frase de Blaise Pascal; enquanto outros gracejavam. Para mim, é um tipo... Ele era pago, fazia isso, tinha uma cabeça que me interessava, e eu o achava perfeitamente qualificado, talvez mais que outro qualquer, para dizer: “O silêncio desses espaços me aterra”... E por que não haveria de dizê-lo? Então, procuro fazer com que ele o diga de maneira que me pareça melhor para que, em todo caso, seja escutado, se não acreditado... Para ser escutado, não para entusiasmar, mas para ser escutado. É por isso que meus filmes nunca tiveram grande sucesso. Tento fazer com que as pessoas escutem alguma coisa, vejam alguma coisa.

Godard, em outro trecho de INTRODUCTION À UNE VÉRITABLE HISTOIRE DU CINÉMA.

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