sábado, 16 de fevereiro de 2008

Actio in Distans

(...) Foi então que descobri esta verdade eterna do palco ou da tela: - a verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz. É, ao contrário, o canastrão, e quanto mais límpido, líquido, ululante, melhor. O grande ator ou atriz é recente. Até poucos anos atrás, representava-se cinema e teatro aos uivos e às patadas. Era hediondo e sublime. Ao passo que o grande ator nada tem de truculento nem berra. É inteligente demais, consciente demais, técnico demais; e tem uma lucidez crítica, que o exaure. O canastrão, não. Está em cena como um búfalo da ilha de Marajó. É capaz de tudo. Sobe pelas paredes, pendurando-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário. Por isso mesmo, chega mais depressa ao coração do povo, deslumbra e fanatiza a platéia (...)

Nelson Rodrigues

É mais ou menos por aí. Nunca consegui acompanhar as novelas globais, as quais alguns amigos indicavam-me, pelo inapelável fato de grande parte dos seus atores conseguirem me exaurir completamente de tédio. A rede Globo é, sem dúvida, a maior fábrica de sumidades no assunto que conheço. “São inteligentes demais”, “conscientes demais”, "técnicos demais". E acredito que o grande ator não precise provar, ele é. Assim como não precise, em primeiro plano, simplesmente representar, mas dar vida à personagem.

Se há uma coisa pela qual o grande ator se beneficia, até mesmo flertando com a representação através de uma matriz mais específica de sua arte, a simples honestidade de ser poderia perfeitamente reivindicar essa suficiência. Mas o processo geralmente não se dá deste modo. O que é uma pena, pois somente a honestidade do ator é capaz de dispensar corações e mentes armados à especificação de uma técnica. É aí, dilacerantemente inquestionável, que o Nelson Rodrigues me encanta em seu insight. Vamos adiante:

Ora, de saída, dispensa-se uma percepção problematizada ao campo visual estabelecido pelo autor em sua própria dramaturgia. Ou sugestionada em alguns casos, como no das telenovelas. A honestidade na compreensão da personagem confunde-se, pois, com a razão de ser da arte dramática para o ator. Não há como fugir de uma condição tão... óbvia. Afinal, se o ator não fosse escalado para ser um objeto ativo, confrontante, intuitivo, porque dentro de um universo ficcional de autoria mais do que assinada, e consciente de que toda sujeição tonal é naufrágio na certa, funcional é que ele não poderia ser. A sua autonomia criativa está indissociavelmente vinculada àquela.

Por diferentes razões, fujo de qualquer finalidade que não seja inicialmente a do simples empréstimo do ator, em suas memórias mais íntimas, ao papel que lhe é entregue. Por quais razões? Okay, apenas uma: não saberia explicar, mas de modo algum, o que diabo passa na cabeça de uma Camila Morgado enquanto exerce sua profissão. Impiedosamente, manda o texto e as marcações para o espaço em tamanha retração autocrítica. O típico expediente cênico calculado de ponta a ponta, por isso não crível.

Tudo bem que você possa deter uma técnica que venha a exercer um canal preciso de efetuação executiva. Não se questiona isso, não mesmo. Geralmente, isso é mais do que necessário, até. Questiona-se, todavia, quando o processo final passa a ser mais interessante para o executor do que a base inicial de seu ofício, que é a entrega emocional a uma vida que, de forma integral, é ficcionalmente gerada a partir dela. Logo, quando a tal “lucidez crítica” fica exposta, perdemo-la por completo. E não é preciso ser um gênio para saber o quão sedutor pode ser um mero acúmulo de técnicas.

Actio in distans, um termo de bastante significado e apreensão para uns: Mickey Rourke, Jack Nicholson, Humphrey Bogart, Steve McQueen, Jece Valadão, Jean-Paul Belmondo... Há ainda quem diga que atuação não é coisa de macho, pode?

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