
Um dia – há coisa de uns seis meses – meu irmão Paulo Rodrigues veio me dizer: - “Não perde um filme que estão levando aí, um italiano”. “Tem um velório genial”. Dois ou três dias depois, tive uma tarde livre. E fui ver o tal filme italiano. Era uma história de bandido, truculenta, e sem nenhum pudor do dramalhão. Algumas de suas peripécias estavam a um milímetro, se tanto, do nosso Vicente Celestino. Todavia, o grande momento foi mesmo a morte do herói. Houve um pânico na platéia, quando ele apareceu, na mesa do necrotério – e cravejado de balas. E, súbito, invade a tela a mãe do bandido.
Qualquer dor tem seu repertório de gritos. Mas ninguém, em nenhum idioma, berra, soluça e uiva como a mãe daquele morto. Era siciliana e aí está tudo dito. Ao ver o cadáver, esganiçou gritos jamais suspeitados. Na minha cadeira, assombrado, confesso: - tive uma sensação de deslumbramento. Há muito tempo não via uma dor tão feroz. Mas foi na cena subseqüente que o diretor do filme entoou o dó-de-peito que trazia no bolso do colete.
Aquela mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Ou por outra: - não beijou apenas, o que seria pouco para a sua fome. Realmente, ela sorvia os dedos, um por um, como aspargos. A boca ativa, insaciável, continuou beijando: - a sola do pé, o calcanhar, as canelas. A imagem monotonamente descritiva, não deixou escapar nada. Era uma dor violentada, exagerada. A própria tela ampliava tudo, dando a cada esgar uma dimensão miguelangesca.
E, de repente, alguém ri, em falsete, na platéia. Logo, outros focos de riso surgidos, aqui e ali. Na treva, eu ,sério, fazia a seguinte e humilhante reflexão: - “Eu não serei beijado assim”. Mas por que o riso, eis a pergunta, por que o riso? Talvez porque a grande dor gesticule e vocifere como a canastrona do velho teatro.
Nelson Rodrigues, em trecho de A Menina sem Estrela.
Qualquer dor tem seu repertório de gritos. Mas ninguém, em nenhum idioma, berra, soluça e uiva como a mãe daquele morto. Era siciliana e aí está tudo dito. Ao ver o cadáver, esganiçou gritos jamais suspeitados. Na minha cadeira, assombrado, confesso: - tive uma sensação de deslumbramento. Há muito tempo não via uma dor tão feroz. Mas foi na cena subseqüente que o diretor do filme entoou o dó-de-peito que trazia no bolso do colete.
Aquela mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Ou por outra: - não beijou apenas, o que seria pouco para a sua fome. Realmente, ela sorvia os dedos, um por um, como aspargos. A boca ativa, insaciável, continuou beijando: - a sola do pé, o calcanhar, as canelas. A imagem monotonamente descritiva, não deixou escapar nada. Era uma dor violentada, exagerada. A própria tela ampliava tudo, dando a cada esgar uma dimensão miguelangesca.
E, de repente, alguém ri, em falsete, na platéia. Logo, outros focos de riso surgidos, aqui e ali. Na treva, eu ,sério, fazia a seguinte e humilhante reflexão: - “Eu não serei beijado assim”. Mas por que o riso, eis a pergunta, por que o riso? Talvez porque a grande dor gesticule e vocifere como a canastrona do velho teatro.
Nelson Rodrigues, em trecho de A Menina sem Estrela.


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