sexta-feira, 14 de março de 2008

A Frat Pack Fede...

Os grandes gênios da comédia sempre souberam separar seus trejeitos característicos da caricatura; jamais os tencionaram a uma conversão de dispositivos gradeados à política do riso pelo riso, em sua compreensão mais precipitada. Posto que, a priori, toda personagem deve transmitir unidade ficcional, lhaneza no vínculo à realidade encenada. E aquele nada mais precisaria do que a vulgaridade de seu automatismo na entrega ao papel.Mas paradoxalmente, pode haver, sim, seguras utilidades dentro de estratégias caricaturais. Por sinal, em âmbito autoral, única: a confrontação entre todos os apetrechos e dispositivos maquinais de um cosmo-centro específico à possível ‘validade’ por eles acarretada. Nesse caso, a perspicácia do autor merece atenção redobrada. Da mesma forma que a vida impõe-se ao convite de tomarmo-la num relacionamento de ilimitadas revelações, de ilimitadas impressões... Supor limites representativos da mesma em direção a determinado(s) indivíduo(s) de um meio, por mais que estimule uma crítica a um pálido ‘estado das coisas’, em contraposição a sua plenitude, soa falso.Justamente, porque nada em absoluto pode ser tão estreito, limitado e exato quando dela, ou de qualquer variante cosmológica, se trata. Filmes de observações restritivas tendem a uma representação gratuita. Criar personagens e aprisioná-las aos eventos mais convenientes de sua acomodação psicológica, só revela o desinteresse do autor em tentar compreender por quais afluentes formam-se as necessidades que regem um mundo a ser “assim”.

Mas de todos os gêneros, a comédia é o que oferece maior desafio e ofertas de produtividade a quem se presta ao caricato. E muito se deve à extrema sintonia da escola com a própria competência semiótica da imagem, absorta de mal resolvidos recalques de “profundidade” dramática. Ponto que a torna tão empregável na dinâmica objetiva da caricatura. Sobretudo, pelo caráter econômico do artifício: eficaz na contenção de informações adicionais ao telespectador, incontinentes ao enfraquecimento da potencialidade, tanto instantânea como prolongada, do riso à venda. O que costuma horrorizar, em relação à Frat Pack, é a maneira como conseguem ignorar a tudo isso. Pulando o andamento da carruagem, devo dizer que pouco me interessa o que este grupo de amigos ou trocadores faça nas horas vagas; muito menos o que disso poderia elevá-lo à condição de uma frente artística. Bem como, em alinhamento, outros grupos devedores de uma sustentável elaboração das confecções propostas. Lidemos, então, com a sua capacitação executiva: O preenchimento da tela a passadas paquidérmicas de sutileza no acompanhamento às marcações cênicas; a afetação comportamental de seus tipinhos a descambar pra neuroses e confrontações existenciais de modo absolutamente previsível, inofensivo às expectativas “lógicas” do publicão multiplex; a metralhadora oral, pouco afeita a seleções flexivas. Fórmula que abriria incontáveis requerimentos para a incursão de qualquer filho da puta desgraçado à condição de militante da Frat Pack, não?

A propósito, os responsáveis pela direção desta ‘frente’, traduzem à perfeição a chamada vista grossa. Excetuando David Dobkin e Adam Mckay, Realizam filmes de encomenda na mesma levada dos atores, sem qualquer compromisso com uma unidade formal – por mais que no caso de Dobkin isto se configure de uma forma escancarada e fastidiosa. Porque, de fato, concerne-lhes a feitura de um veículo destinado à manutenção da fama de terceiros. E não mais do que isso. É uma encenação, a desses sujeitos, que costuma perseguir aquela pior caricatura, a do pouco (ou nenhum) caso para com o desenvolvimento ficcional. Ínfimo é o estímulo ao intérprete no mergulho à criação. Como ele poderia aferir seus atributos cênicos ao domínio de dispositivos inventivos, porque seus, na condição específica daquela, negando a reprodução de um imperativo unicamente? Tudo isso vem a ser negado. Fato que só rende, e sujeita, mais e mais, os comediantes à morosidade na lida de algo devidamente elaborado.Encenar sem confrontações internas significa desuso perceptivo. E a passividade, em absoluto, nada tem a ver com o ato em si da atuação. Mesmo porque a sua primeira disposição, a Interpretação, surge à base de (re) leituras cosmológicas, não sob mimetizações de gestos/posturas alheios. Medida incapaz de reproduzir, ainda, ao custo da constante exploração da fisicalidade na imagem em questão, qualquer fauna mórfica à precisão.

As tramas estabelecem em maior evidência as suas cartas marcadas; despertam suposições de alguns posicionamentos comuns sobre política, sociedade, amizade e afins fora dos sets. Contudo, mesmo que mude a situação e a as exigências dramáticas, o tratamento será quase sempre igual: grosseria no humor e a extravagância burlesca no formato de sua intensidade gestual. Além de a fluência expressivo-corporal ser deficitária em quase todos, salvo Ferrell (também excetuado das demais acusações), tal humor protocolar é incapaz de sustentar qualquer outra ostentação que não seja a de algo desgastante até a medula. Não há fundamento, logo não há forma sustentável; não há arte. A execução, neste caso, em nada difere da tarefa de quem se presta a limpar um ventilador. É uma tarefa a se fazer, caracterizada pela premeditação de um possível retorno financeiro. Simplesmente, demonstram que suas ofertas não passam de personagens fadadas a cumprirem uma impertinente programação de roteiro-direção; por sua vez a entupir-se do complexo da atmosfera desvairada de Dias Incríveis - produto pelo qual se valeram da pecha de corrente humorística, por conta de uma infeliz jocosidade jornalística.

Nada é de mais, quando tudo é pra crer... Enfim.


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