sábado, 16 de fevereiro de 2008

Walsh, Cagney e o Topo em White Heat...



Walsh, cineasta cujas personagens são marcadas pela sina de atingirem o topo do mundo naquilo que fazem. Uma estirpe destemida, independente e objetiva. Em suma: disposta à honra da eternidade sem temer pelo fracasso, ou por ela vir a ser posta à prova – objetivada pelo autor sob a forma evocativa da sua determinação à sociedade, em exercício. Cagney, profundamente convencido de que nascera para atuar. E de que esta atividade estaria muito além da condição de ganha-pão, considerando-se até mesmo um predestinado. Um artista levando à risca o tamanho de sua sina em tornar-se digno de sê-lo; consciente do incessante aperfeiçoamento profissional e da libertação ao mais do mesmo. Parceiro de Walsh, ainda famoso por proteger suas estrelas das imposições da Warner, o caminho estaria livre para que Jimmy angariasse as melhores interpretações da carreira, como posto de forma condizente à prova na escalada ao topo. Tanto que da marcante presença em Public Enemy a White Heat, clássicos dos filmes de Gângsteres filmados por Walsh, aos quais se associou estreitamente, a evolução chega a ser sensível. As personagens ganham em crescentes nuances psicológicas, sobretudo nas respostas corporais do ator aos estímulos mais cerebrais de seu jogo. Mas se numa mão a caracterização do ator parece madura, visivelmente trabalhada com esmero em escala cognitiva, na outra a soltura do encarnar às personagens, tão própria de Cagney, parece bem mais ‘fora de controle’. Nela, o ator capta toda a ambiência psicológica da trama, e a converte como elemento condutor para os demais, sem muita sutileza de se impor como tal, à base de disparos expressivos à queima-roupa. Tão bem direcionados quanto convincentes, cada respaldo expressivo, flexivo e modular que se esboça na tela espanta pela capacidade (expansiva) de incorporação do ator ao despotismo de Cody Jarrett. O que me faz pensar em White Heat como o auge da acuidade dramática de Walsh - extraindo o melhor de suas peças variáveis através de estímulos à transparência psicológica do executor frente às ‘circunstâncias determinadas’. E, além disso, no caráter insubstituível da presença de Jimmy Cagney, numa ponderada retrospectiva, na velha Hollywood, para conseguir humanizar os delírios desmedidos do demente: por sua insuperável capacidade de intuir e, mais importante, assimilar as peculiaridades do timing alheio: a impedir que, através do menor dos movimentos suspeitos, ambos perdessem seu topo de vista.

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