
O que mais costuma trair um ator, em pleno desempenho cênico? O que o impede de cair grosseira e indiscriminadamente na fulanização, na mera mimetização técnica? A resposta é mais do que visível. Problematicamente, encontra-se naquele recurso menos inteligível à classe, o olhar. Por ser o DNA da alma, ele tanto denuncia, como mina qualquer técnica destituída de sintonia entre os intérpretes e as elaborações determinantes de suas crias. Não à toa que inúmeros encontrem-se deslocados, desconcentrados, de olhos para o lado, enquanto lhes dirigem a palavra, em busca de situação; seja textual, seja especulativa. No cinema, em se tratando do olhar (resguardando a pluralidade significativa do termo quanto ao mergulho à ficção), Charles Bronson surgirá em primeiríssimo plano para quem o tenha visto no final de Era Uma Vez no Oeste (68). Nome que, ao longo de uma extensa filmografia, provou a eficiência do seu estilo minimalista, baseado na implosão expressiva e na disposição ao desenvolvimento de sugestivas lacunas do silêncio.
As insondáveis realidades subjetivas de suas personagens encontram-se intimamente coadunadas à caracterização taciturna, de modo integral. Ao cerne da proposta, faz-se uso de um brutal monitoramento corretivo, a evocar maior convencimento através da manipulação corporal - lenta e dona de seus próprios passos, como a mesma daqueles que escolhem a solidão para viver. O recurso visa não denunciar qualquer sensação mais espontânea, por mínima que se proponha ser. Algo oferecido facilmente por um inocente descuido interpretativo, mas que seria o suficiente para pôr tudo a perder; na fragmentação substancial da uma atmosfera calculista, lançada sobre as metas das personagens. Este posicionamento implacável de contenção acaba permitindo algo um tanto inédito no manuseio da ‘espera pelo algo mais’: dialogando abertamente com o silêncio expelido pela tensão inerente aos gêneros Policial e Western, Bronson desperta um ávido estranhamento ao senso comum. Isso, devido à “neutralidade” sentimental com que permanece diante das revelações mais explícitas associadas aos clichês deste tipo de cinema; mais diretamente ao seu freqüente tema da vingança. Algo culminante, todavia, para a captação da imponderabilidade seqüencial que a sua boa ação seguramente tende a projetar. Toda essa ação desenvolve-se sob olhos impassíveis, de uma fronte em que a dúvida não costuma traçar caminhos. A obstinação é o único elemento à disposição do nosso voyeurismo, em seu raio ficcional. Vai-se da temperança a uma ‘prorrompida brutalidade’, que na verdade se espraia paulatinamente dentro do sentimento de deslocamento impingido pelas ordens dos fatores estabelecidos. As lágrimas, as lembranças pelo que se deixa pra trás, cedem lugar no anti-hero Bronsoniano a uma torrente plúmbea de fúria. E “só”.
Nesse processo, não se conjuga os danos. Ou muito menos a reestruturação interior das personagens. Trabalha-se a postura, a pose e o duplo da concentração entre cria e ator. A sedução pela expectativa do público é o que importa, tudo o mais é secundário. Escolha que se mostra oportuna, dado o veto funcional àquela descaracterização supracitada, anteriormente. A qual poderia, de antemão, ser acarretada pela sugestão da abertura psicológico-ficcional de um perfil que, nas relações práticas, sequer tende a cogitar alguma possibilidade de realização. São objetos que podem até deter dubitáveis juízos acerca de justiça e ética, porém são irrevogáveis exemplos de superação criativa. A constatação, como não poderia deixar de ser, é única: não dá para se esquivar dos olhos de Bronson, a magnetizar todo um interesse de desvendá-los, ainda que saibamos em vão, da primeira até a última aparição do mesmo. Não se pode acreditar que haja tamanho ânimo artesanal dentro de suas composições. Em algum lugar, você conclui, ele escorregará nessa condensada aura de mistério, expondo ínfimas fraturas. Afinal, o desgraçado é humano! No entanto, jamais acontece.
As insondáveis realidades subjetivas de suas personagens encontram-se intimamente coadunadas à caracterização taciturna, de modo integral. Ao cerne da proposta, faz-se uso de um brutal monitoramento corretivo, a evocar maior convencimento através da manipulação corporal - lenta e dona de seus próprios passos, como a mesma daqueles que escolhem a solidão para viver. O recurso visa não denunciar qualquer sensação mais espontânea, por mínima que se proponha ser. Algo oferecido facilmente por um inocente descuido interpretativo, mas que seria o suficiente para pôr tudo a perder; na fragmentação substancial da uma atmosfera calculista, lançada sobre as metas das personagens. Este posicionamento implacável de contenção acaba permitindo algo um tanto inédito no manuseio da ‘espera pelo algo mais’: dialogando abertamente com o silêncio expelido pela tensão inerente aos gêneros Policial e Western, Bronson desperta um ávido estranhamento ao senso comum. Isso, devido à “neutralidade” sentimental com que permanece diante das revelações mais explícitas associadas aos clichês deste tipo de cinema; mais diretamente ao seu freqüente tema da vingança. Algo culminante, todavia, para a captação da imponderabilidade seqüencial que a sua boa ação seguramente tende a projetar. Toda essa ação desenvolve-se sob olhos impassíveis, de uma fronte em que a dúvida não costuma traçar caminhos. A obstinação é o único elemento à disposição do nosso voyeurismo, em seu raio ficcional. Vai-se da temperança a uma ‘prorrompida brutalidade’, que na verdade se espraia paulatinamente dentro do sentimento de deslocamento impingido pelas ordens dos fatores estabelecidos. As lágrimas, as lembranças pelo que se deixa pra trás, cedem lugar no anti-hero Bronsoniano a uma torrente plúmbea de fúria. E “só”.
Nesse processo, não se conjuga os danos. Ou muito menos a reestruturação interior das personagens. Trabalha-se a postura, a pose e o duplo da concentração entre cria e ator. A sedução pela expectativa do público é o que importa, tudo o mais é secundário. Escolha que se mostra oportuna, dado o veto funcional àquela descaracterização supracitada, anteriormente. A qual poderia, de antemão, ser acarretada pela sugestão da abertura psicológico-ficcional de um perfil que, nas relações práticas, sequer tende a cogitar alguma possibilidade de realização. São objetos que podem até deter dubitáveis juízos acerca de justiça e ética, porém são irrevogáveis exemplos de superação criativa. A constatação, como não poderia deixar de ser, é única: não dá para se esquivar dos olhos de Bronson, a magnetizar todo um interesse de desvendá-los, ainda que saibamos em vão, da primeira até a última aparição do mesmo. Não se pode acreditar que haja tamanho ânimo artesanal dentro de suas composições. Em algum lugar, você conclui, ele escorregará nessa condensada aura de mistério, expondo ínfimas fraturas. Afinal, o desgraçado é humano! No entanto, jamais acontece.


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