
A primeira impressão de afobação, quanto ao ritmo de A Máscara do Terror, revela-se em seu desenvolvimento ser indispensável ao filme. É a forma encontrada por Romero para esculpir o tempo à medida que realidade, ficção, loucura e paranóia não conseguem mais se dissociar de um estado contemplativo. E, levando em consideração a fragilidade desse estado, nada mais justo um recorte sintético que venha elidir um pouco as insinuações de algumas ações do protagonista, fortalecendo a obsessão de um homem rumo às verdades as quais costumava ignorar.
Henry é um sujeito pacato, honesto; dedicado ao trabalho e à sua mulher, Janine. Seu sonho é ter uma residência em seu próprio nome de uma vez por todas, e atingir outras metas de cunho materialista. Sofre pressões da esposa devido ao “déficit” financeiro do casal, atura humilhações calado no ambiente de trabalho e ainda fecha os olhos para não ver o claro desvio de dinheiro do seu melhor amigo, responsável pelo gerenciamento de suas aplicações econômicas. Até que num churrasco, organizado por seu patrão Milo, todo o mundo seguro e inabalável de Henry desabará ao pegar a esposa no flagra, enquanto esta o masturba - tendo uma avalanche de verdades atirada na cara, sem aviso, sobre sua apatia pela adúltera (profundamente abismada pela passividade do marido, após ter descoberto tudo).
O que ninguém imagina é que essa distintiva calma, não passa de invólucro. O protagonista, logo no início do filme, é acometido por perturbações mentais bastante agressivas. Visões de suicídio e de explosões indômitas de seus instintos reprimidos passam a ser uma constante no dia-a-dia do trabalhador. E, após todo aquele apedrejamento de impropérios aos seus ouvidos, passa a conviver com a perturbação permanente de não conseguir discernir a realidade das possíveis novas alucinações.
Num processo semelhante ao de Alex, em Laranja Mecância, Henry será quase que levado pelo próprio subconsciente ao enfrentamento de questões mal-resolvidas no passado. Inteiramente abalado pela noite anterior (noite da separação), ele acordará e terá uma grande surpresa quando for se barbear ao espelho: sua face está coberta por uma máscara branca, igualzinha a que usaria durante o baile de fantasia da empresa, confeccionado pela mulher de Milo e uma inocente paixão. Se ela falara que as outras miniaturas em seu jardim, com máscaras similares, representavam almas perdidas na ausência de alguma personalidade marcante, nascidos para o esquecimento (em desabafo contido à vida que leva), uma peça do destino então lhe foi empregada. Não é miragem, ou pelo menos não parece ser. A máscara não o abandona. Como enfrentar agora a rotina de antes com esse rosto? O gatilho dessa pane mental é acionado durante o assassinato involuntário da empregada doméstica do casal. Preso a tal máscara, a estampar o artificialismo de um rosto sem traços pessoais, toda uma revolta interior decorrente do sentimento de castração blindar-se-á, inicialmente, contra qualquer ímpeto de racionalidade. Alheia a tudo isso, a empregada o xinga em espanhol, na repetição do que antes era ignorado pelo patrão. Num acesso delirante de fúria, ela é agredida e acaba morrendo.
É certo que diante de um processo de turbulência emocional não se possa esperar muita exuberância técnica nesse sentido, sob o risco de tornar o acompanhamento por demais mecânico. Não se peca neste quesito, em cena alguma. Mas neste ponto, a liga rítmica do filme dará alguns espasmos de insuficiência. (O que não se configura como um grave problema, contornado pela habitual eficiência cirúrgica de Romero). A essa altura de revelações tão explícitas, Henry é impulsionado obcecadamente a tirar à prova todos os pesadelos internos que o perseguiam. A busca empreendida começa a dar indícios de sua inevitabilidade de enfrentamentos cada vez mais conflituosos. Num desses “pesadelos”, encontrará a ex-esposa transando na mesa de trabalho de Milo com o mesmo. O chefe abandona o local diante do risco de se dar mal na história, pois sua mulher também os flagra. Desesperado para evitar o rompimento com a esposa (as questões financeiras pesam sobre seus neurônios), berra em vão na rua: enquanto a amante é assassinada por Henry.
É certo que diante de um processo de turbulência emocional não se possa esperar muita exuberância técnica nesse sentido, sob o risco de tornar o acompanhamento por demais mecânico. Não se peca neste quesito, em cena alguma. Mas neste ponto, a liga rítmica do filme dará alguns espasmos de insuficiência. (O que não se configura como um grave problema, contornado pela habitual eficiência cirúrgica de Romero). A essa altura de revelações tão explícitas, Henry é impulsionado obcecadamente a tirar à prova todos os pesadelos internos que o perseguiam. A busca empreendida começa a dar indícios de sua inevitabilidade de enfrentamentos cada vez mais conflituosos. Num desses “pesadelos”, encontrará a ex-esposa transando na mesa de trabalho de Milo com o mesmo. O chefe abandona o local diante do risco de se dar mal na história, pois sua mulher também os flagra. Desesperado para evitar o rompimento com a esposa (as questões financeiras pesam sobre seus neurônios), berra em vão na rua: enquanto a amante é assassinada por Henry.
Excetuando algumas cenas insípidas e mal-decupadas, como no momento em que Henry, do nada, chega até Rose, junto dos policiais que já sabem de sua identidade como assassino da esposa e do melhor amigo Jim (também morto num auto-enfrentamento moral de Henry), e ambos saem em disparada, outras soluções dramáticas ainda desagradam um pouco. E é impossível não pensar em certa tipificação desnecessária que prepondera, por exemplo, na figura do responsável pelos efeitos especiais da festa da fantasia. Vendo a capacidade do cineasta em tirar proveito de certos estereótipos, como prova sua tetralogia de filmes de Zumbis, fica a desejar razoavelmente nesse quesito. Sem contar que o painel da festa já estava de bom grado, em todos os aspectos.
No mais, um bom filme. Até mesmo no tratamento de Milo, que é de longe uma das coisas mais fascinantes de A Máscara do Terror. Quando tomamos conhecimento de sua figura, é absolutamente impossível não achá-lo fascinante pelo desdém aos formalismos empresariais que evoca. Ainda na introdução à sua personagem, causa grande estranhamento como todos o abominam. Depois vemos que não é o comportamento que Romero recrimina, mas o pouco que este, taxativamente, fazia dos seres humanos. Até porque essa é a mensagem mais substancial do filme, visto o final à Desejo de Matar (embora cem mil vezes mais inteligente): a falta de identidade, reproduzida em larga escala pelos donos do poder, causa uma legião de possíveis psicopatas e refugos sem cor das “melhores” farsas.
E tocando no assunto, deve ser dito que a violência não será exortada no filme pela triagem dos discursos de Henry, completamente revoltado contra um sistema em que todos são convenientemente esmagados por alguns trocados a mais. Isso seria simplismo demais para uma mente brilhante como a de Romero que, ao contrário, faz questão de reconhecer a falência de seu estado emocional. Estado que, certamente, lhe interessa estética e reflexivamente, mas que somente poderia ser privilegiado como uma real força argüitiva através de uma junção com a lida também angustiada de Rose, porém mais ponderada (racional, digamos).
A desvalorização do amor, bem como outros ecos da alta voz coração, a favor de uma coleção material sem sentido, muito parecida com a tarefa interminável de formigas à cata de matérias pelos cantos; o caos pós-moderno e a ideologia contemporânea do “salve-se quem puder”, são filtrados satisfatoriamente por uma aguçada visão crítica, consciente, sobretudo, do poder discursivo de suas imagens – não se encerrando em entrópicos enfrentamentos cuja desmesura literária abortaria toda uma razão de ser cinema (alguém aí pensou em Michael Moore?). O acabamento final dessa breve alegoria sobre o gradativo desmoronamento da sociedade de consumo não poderia ser menos que isso: um Romero competente; o que não é pouco.


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