sábado, 29 de março de 2008

Mechanical Animals...


No segundo disco da trilogia da América, ou das faces de sua sociedade, Marilyn Manson desencarna da figura do anticristo Superstar. Em Mechanical Animals, daria vida à personagem Omega, que segundo o mesmo, seria uma cria do governo para “encantar” e seduzir as massas. Se ela realmente fora concebida para seduzir as massas de manobra, a lógica do papel se inverte. Omega dispara contra tudo e a todos. É um ser nascido com defeito insolúvel de fabricação: o não-conformismo. Cria de um mundo o qual repugna e tenta assimilar, não se permitindo ao conformismo de não aceitá-lo simplesmente. E reflete em canções a permanente luta para não enlouquecer a qualquer momento num mundo intragavelmente limpo, sem janelas, portas ou um espaço mínimo para a liberdade além de meio palmo a frente dos narcóticos. As imagens se distorcem naturalmente em artificialidade na sua América; no pairar agônico das retinas, quadros desoladores (à Francis Bacon) se alastram inflexivelmente a cada novo ângulo de visão.

O berço do cenário Pop onde Omega nasce para estrelar é a sua condenação. Em algum período dessa trajetória sobremaneira planejada, ele se perde. Bate de frente com a premeditação de cada ato da humanidade. Enlouquece entre as posturas espectrais de um grande culto conformista. Noções de certo e errado são apontadas como as mais deploráveis vilãs do boicote à sensibilidade humana, juntamente com a ganância material travestida de conhecimento específico. “A tecnologia ainda não pôde criar os nossos próprios sentimentos”, mas parece próxima de conseguir tal feito, pela paralisia ululante do homem em sua intelectualidade, livre arbítrio e capacidade de amar, no girador de uma pausada análise ocular. Funções são vendidas e vendidas e vendidas.

Os cacos de sua postura confortável se partem em infinitas partículas, levadas pelo vendaval da revolta contra a programação a qual também fora submetido. Omega tornou-se algo; deu-se conta da sua inumanidade. Não poderia voltar atrás. De ser meramente classificável, luta para ser alguma coisa a mais. A única possibilidade encontrada para vislumbrar esse diferencial foi percebida na denúncia. A crítica é a redenção para Omega, quando abandona a condição reinante de inatividade. Exaltemo-la como método genuíno de pensar, construir, dispõe-se Manson. Mas, por outro lado, lhe é plena a certeza de que ouvidos batizados pelos dogmas do Bem não virão a ouvi-lo da maneira pretendida, se muito ouvi-lo. Há quem ouça-o, em todo caso. E, ainda por este prisma, a marcha dos vermes Nietzschianos encontra ressonância no discurso do artista: a impossibilidade de se construir aquele algo mais é seriamente questionada, bem como perseguida a despeito de qualquer risco ou penitência de ordem físico-mental.

Em Great Big White World, Omega descreve a terra como um tipo de inferno congelante, sob o ponto de vista de um cara numa crise monstruosa de tédio, divagando sobre o suicídio para a esposa. Critica-se um estilo de vida impecável e frio em que as cores interiores de cada um devem ser drenadas, a favor de um nefasto senso igualitário. É uma música apreensiva, com fortes despejamentos de Heavy-Metal e ruídos eletrônicos, além de ser a melhor do álbum. The Dope Show acompanha a sonoridade de Great Big White World e aparenta evocar cenas corriqueiras dos bastidores do cenário musical, vivenciadas por Manson. Cenas, em sua maioria, infestadas de gente interesseira e rastejante a tentar tirar proveito dos artistas que encontram-se no topo musical, “They’ll love you where you’re on the covers, when you’re not then they love another”. O desprezo impregnado pela voz sensual de Manson (seduzindo e, na mesma moeda, descartando-os sarcasticamente) é brilhante, credenciando a segunda faixa a uma atenção redobrada.

Mechanical Animals, a faixa de número três, demonstra que as obsessões de Manson em relação ao suicídio estavam em alta nesta época. São as últimas palavras de outro alguém a planejar seu próprio fim. Não poupando-se de uma autopunição ligada a frustrantes tentativas de convencimento a uma “modelo de depressão”, que provavelmente tomou como esposa, a si mesmo e ao rei (alusão à figura de Satanás, realçando o desapego às crenças religiosas) de que não seria nenhum animal mecânico. A sonoridade mantém-se fiel às duas primeiras, na fonte do Metal Industrial, da Goth-Music e da Decadence avec Elegance do “Glam Rock”, a preparar o ouvinte para o espancamento musical seguinte. Rock is Dead é uma crítica ácida de Manson ao protótipo do novo roqueiro de sucesso e à incompetência midiática na apresentação de atrações decentes - sendo sugerido na letra a onipresença de Deus e outras porcarias na tv. A faixa engrena num Heavy Metal o mais direto possível, com adicionais quebradas em ares de Dance Music, e aposta na economia de detalhes em seus arranjos.

Em Disassociative, reflete-se outra revolta de espírito à base do escapismo (literalmente) espacial, em que o universo tecnológico é confundido com a própria razão de existir dos seres humanos: “I can’t never get out of here/ I don’t to just float in fear/ A dead astronaut in space”. A vitalidade dos músicos Twigg Ramirez e Zim Zum (que havia rompido com a banda durante as gravações), principais cabeças das linhas sonoras, consegue deixar a música mais atraente a despeito de certa banalidade na letra de Manson. The Speed of Pain é uma contemplação mórbida à frustrante permanência da dor no nosso mundo. Soa completamente falsa na obrigatoriedade de chocar ao seu término. Soa tão falsa que nem mesmo a competente produção (executada por Michael Beinhorn e Marilyn Manson), no esforço de torná-la insinuante, a salva. E é o mesmo que ocorre em na tiração de sarro musical de User Friendly, a tocar novamente no assunto dos aproveitadores do showbizz; em The Last Day on Earth, na (pesadíssima) dosagem de mais uma crítica à desumanização associada ao avanço desenfreado do conhecimento tecnológico; e na arrastada Fundamentally Loathsome, a repetir sem brilho todo o colapso mental de Great Big White World, provocado pela higiene ideológica de um mundo “perfeito”, de alguém a implorar a morte, em vista de seu fracasso em viver à base de drogas para poder suportar a realidade.

As faixas restantes não apresentam o alto nível das quatro primeiras canções. Mas, em todo caso, garantem a esse disco de altos e baixos um bom aproveitamento no total. Em I don’t like the Drugs but the Drugs like me, Manson brinca com um sem-número de regras as quais o ser humano precisa cultivar em sua permanente neurofobia, dando uma de irrepreensível e...humano. Cita alguns males, a seu ver, mais do que associáveis à América: o cristianismo, o racismo, a homofobia, a superficialidade. Riffs marcantes de guitarra e a contagiosa provocação do cantor se sobressaem nesta faixa, de roupagem Hard-Rock com elementos de Black-Music. I Want to Disapear é anarquismo explícito, em versos de afronta à família de bem do senso-comum americano. Certeira e simples em seu bombardeio musical de equalizações, distorções e leves efeitos eletrônicos. New Model No. 15 apresenta agora a pane mental sob o ponto de vista de um modelo de “perfeição”, atormentado por seus sentimentos. Mas, ainda assim, mantendo resquícios de uma auto-politicagem de funções – dividindo espaço com a desconfortável situação de domar sua essência, sem que os outros lhe descubram a imperfeição. Incrivelmente este Heavy-Dance Metal dá certo, conferindo a climatização exata para um imperioso ambiente de decadência.

Posthuman é uma canção sonoramente bem Bowiana, lembrando algumas coisas do Scarry Monsters e Super Creeps, porém sem muito brilho. Uma revolta “religiosa e limpa”, novamente vinda de um cara arruinado emocionalmente por seguir as regras da boa conduta. Em Coma White, a banda se despede com a quinta melhor faixa do disco. O desespero que a música evoca é quase impossível de se tentar reproduzir em palavras. Street Spirit do Radiohead chega ser “Feel Good” total se comparada a ela, composição que coincidentemente a lembra um pouco nos arranjos que antecedem o refrão. Visões embaralhadas de mais uma pessoa, entre outras tantas, entregue a um Coma White. O peso musical do refrão se transfere aos versos de Manson, entonados em verdadeiro martírio: a pill to make you numb, a pill to make you dumb, a pill to make you anybody else... but all the drugs in this world won’t saver her from herself. Indubitavelmente poucos álbuns transmitiram uma visão tão sinistra de mundo quanto Mechanical Animals, como pouquíssimos, ainda que em momentos isolados, tenham sido tão convincentes em sua mensagem.

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