quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Lei do gatilho...


A Lei do gatilho é um B-Western descabidamente desprovido de comando, interesse ou imaginação. Se não chega a ser possível conceder-lhe uma serventia do ponto de vista axiológico, acabou contribuindo, bem como a grande parte dos outros títulos da Monogram e Republic estrelados por John Wayne, para que o ator se mantivesse em Hollywood após o fracasso comercial de A Grande Jornada. Até atingir, é claro, sua consagração em No tempo das Diligências do mestre Ford.

O grande problema, indicado implicitamente na primeira linha, é que coube a Robert N. Bradbury a missão de assumir o roteiro e a direção, que nada rendem além de equívocos dos mais variados aspectos. A começar pela antevisão de sua existência fílmica: o que interessa aqui não é fazer bem, mas no menor raio de tempo; substituindo a eficácia pela praticidade.

Essa política tacocrática das produções, inventariada, sobretudo, pelo regime dos estúdios especializados em realizar obras de baixíssimo orçamento e lançá-las em sessões duplas nas matinês, caiu como uma luva para a falta de sentido estético - ou qualquer sentido mesmo - de vários cineastas, entre os quais o retrato mais lastimável e fiel se traduz na filmografia de Bradbury.

O argumento de A Lei do Gatilho é simples: o delegado federal john Carruthers (Wayne) é designado para desvendar sigilosamente uma série de roubos de pagamento na cidadezinha de Yucca; cria uma parceria com o Xerife, com quem também não se identifica e ainda desconfia da autoria do mesmo nos crimes.

O manejo do roteiro (a terceira encomenda do diretor para a produtora Lonestar) remete à intrigalhada de quinta categoria de Na Pista do Traidor e Armando o Laço (as duas anteriores), em que a falsidade impera pela manipulação das cenas, portadoras de uma imensa previsibilidade ficcional. Como se não bastasse, ainda nos primeiros minutos, o filme já perece de um esgotamento súbito de autonomia plástica. E muito em conta porque seu artesão não parece consagrar um tempo adequado em relação à découpage.

Entre parênteses, a impressão que se tem da concepção plano-a-plano de A Lei do Gatilho é de que fora realizada por alguém ao lado de um vespeiro. O filme tem que ser finalizado. E isso é tudo.

Incapaz de intuir sobre uma representação, nem diria em conta, mas o menos grotesca possível ao seu roteiro, emplastrado de sub-tramas mal construídas (insipientes até à medula) e diálogos forçados, Bradbury delega ao elenco a missão de sustentar alguma intensidade narrativa, sem ao menos deter uma noção básica de como coordená-los ou dispô-los em cena.

Tamanho é este descaso que os atores encontram-se, em invariável contumácia, meia-escala acima do sugerível; seja em tom, gestualização ou deslocamento espacial. Seguindo a tísica urdidura ficcional, as ferramentas tecno-operacionais são inteiramente apropriadas ao conjunto da obra:

A precariedade dos enquadramentos, o que já torna insustentável a janela de 1.33:1; variações angulares à beira da paralisia criativa, e que apenas sublinham o péssimo aproveitamento dos espaços; e uma edição desengonçada, que mutila abruptamente boa parte dos planos, como se não acreditasse no próprio material imagético.

No entanto, o mais duro é admitir que nem John Wayne alcança resultados satisfatórios. Apesar de exalar transpiração e profissionalismo, carece-lhe entusiasmo. Seu constrangimento nunca é parcialmente camuflado durante as falas alheias, além do amofinamento diante do ridículo de toda a situação.

E com toda razão o entusiasmo não lhe dá as caras, A Lei do Gatilho conseguiu estar abaixo da limitada qualidade dessas realizações, muitas vezes concluídas em questão de semanas, cujos fins eram truculentamente comerciais. O que, por outro lado, não é desculpa para ninguém. Porque Edgar G. Ulmer só precisou de seis dias, e de culhões entre os joelhos, para eternizar o seu mítico Curva do Destino.

Por mais fracos que fossem um Carl Pierson e um Harry L. Fraser, não conseguiram a proeza do Sr. Bradbury: converter o potencial da maior lenda entre os cowboys num irregular objeto de imagem.

2 comentários:

Anônimo disse...

Felipe

Há um bom tempo vi alguns desses filmes aqui citados. Também tive uma impressão tão negativa quanto. Acho que você foi muito feliz ao citar Curva do Destino, que é inclusive um dos meus filmes favoritos.

Abraço, Marcos.

Felipe Medeiros de Morais disse...

É foda, realmente.