
A Lei do gatilho é um B-Western descabidamente desprovido de comando, interesse ou imaginação. Se não chega a ser possível conceder-lhe uma serventia do ponto de vista axiológico, acabou contribuindo, bem como a grande parte dos outros títulos da Monogram e Republic estrelados por John Wayne, para que o ator se mantivesse em Hollywood após o fracasso comercial de A Grande Jornada. Até atingir, é claro, sua consagração em No tempo das Diligências do mestre Ford.
O grande problema, indicado implicitamente na primeira linha, é que coube a Robert N. Bradbury a missão de assumir o roteiro e a direção, que nada rendem além de equívocos dos mais variados aspectos. A começar pela antevisão de sua existência fílmica: o que interessa aqui não é fazer bem, mas no menor raio de tempo; substituindo a eficácia pela praticidade.
Essa política tacocrática das produções, inventariada, sobretudo, pelo regime dos estúdios especializados em realizar obras de baixíssimo orçamento e lançá-las em sessões duplas nas matinês, caiu como uma luva para a falta de sentido estético - ou qualquer sentido mesmo - de vários cineastas, entre os quais o retrato mais lastimável e fiel se traduz na filmografia de Bradbury.
O argumento de A Lei do Gatilho é simples: o delegado federal john Carruthers (Wayne) é designado para desvendar sigilosamente uma série de roubos de pagamento na cidadezinha de Yucca; cria uma parceria com o Xerife, com quem também não se identifica e ainda desconfia da autoria do mesmo nos crimes.
O manejo do roteiro (a terceira encomenda do diretor para a produtora Lonestar) remete à intrigalhada de quinta categoria de Na Pista do Traidor e Armando o Laço (as duas anteriores), em que a falsidade impera pela manipulação das cenas, portadoras de uma imensa previsibilidade ficcional. Como se não bastasse, ainda nos primeiros minutos, o filme já perece de um esgotamento súbito de autonomia plástica. E muito em conta porque seu artesão não parece consagrar um tempo adequado em relação à découpage.
Entre parênteses, a impressão que se tem da concepção plano-a-plano de A Lei do Gatilho é de que fora realizada por alguém ao lado de um vespeiro. O filme tem que ser finalizado. E isso é tudo.
Incapaz de intuir sobre uma representação, nem diria em conta, mas o menos grotesca possível ao seu roteiro, emplastrado de sub-tramas mal construídas (insipientes até à medula) e diálogos forçados, Bradbury delega ao elenco a missão de sustentar alguma intensidade narrativa, sem ao menos deter uma noção básica de como coordená-los ou dispô-los em cena.
Tamanho é este descaso que os atores encontram-se, em invariável contumácia, meia-escala acima do sugerível; seja em tom, gestualização ou deslocamento espacial. Seguindo a tísica urdidura ficcional, as ferramentas tecno-operacionais são inteiramente apropriadas ao conjunto da obra:
A precariedade dos enquadramentos, o que já torna insustentável a janela de 1.33:1; variações angulares à beira da paralisia criativa, e que apenas sublinham o péssimo aproveitamento dos espaços; e uma edição desengonçada, que mutila abruptamente boa parte dos planos, como se não acreditasse no próprio material imagético.
No entanto, o mais duro é admitir que nem John Wayne alcança resultados satisfatórios. Apesar de exalar transpiração e profissionalismo, carece-lhe entusiasmo. Seu constrangimento nunca é parcialmente camuflado durante as falas alheias, além do amofinamento diante do ridículo de toda a situação.
E com toda razão o entusiasmo não lhe dá as caras, A Lei do Gatilho conseguiu estar abaixo da limitada qualidade dessas realizações, muitas vezes concluídas em questão de semanas, cujos fins eram truculentamente comerciais. O que, por outro lado, não é desculpa para ninguém. Porque Edgar G. Ulmer só precisou de seis dias, e de culhões entre os joelhos, para eternizar o seu mítico Curva do Destino.
Por mais fracos que fossem um Carl Pierson e um Harry L. Fraser, não conseguiram a proeza do Sr. Bradbury: converter o potencial da maior lenda entre os cowboys num irregular objeto de imagem.
O grande problema, indicado implicitamente na primeira linha, é que coube a Robert N. Bradbury a missão de assumir o roteiro e a direção, que nada rendem além de equívocos dos mais variados aspectos. A começar pela antevisão de sua existência fílmica: o que interessa aqui não é fazer bem, mas no menor raio de tempo; substituindo a eficácia pela praticidade.
Essa política tacocrática das produções, inventariada, sobretudo, pelo regime dos estúdios especializados em realizar obras de baixíssimo orçamento e lançá-las em sessões duplas nas matinês, caiu como uma luva para a falta de sentido estético - ou qualquer sentido mesmo - de vários cineastas, entre os quais o retrato mais lastimável e fiel se traduz na filmografia de Bradbury.
O argumento de A Lei do Gatilho é simples: o delegado federal john Carruthers (Wayne) é designado para desvendar sigilosamente uma série de roubos de pagamento na cidadezinha de Yucca; cria uma parceria com o Xerife, com quem também não se identifica e ainda desconfia da autoria do mesmo nos crimes.
O manejo do roteiro (a terceira encomenda do diretor para a produtora Lonestar) remete à intrigalhada de quinta categoria de Na Pista do Traidor e Armando o Laço (as duas anteriores), em que a falsidade impera pela manipulação das cenas, portadoras de uma imensa previsibilidade ficcional. Como se não bastasse, ainda nos primeiros minutos, o filme já perece de um esgotamento súbito de autonomia plástica. E muito em conta porque seu artesão não parece consagrar um tempo adequado em relação à découpage.
Entre parênteses, a impressão que se tem da concepção plano-a-plano de A Lei do Gatilho é de que fora realizada por alguém ao lado de um vespeiro. O filme tem que ser finalizado. E isso é tudo.
Incapaz de intuir sobre uma representação, nem diria em conta, mas o menos grotesca possível ao seu roteiro, emplastrado de sub-tramas mal construídas (insipientes até à medula) e diálogos forçados, Bradbury delega ao elenco a missão de sustentar alguma intensidade narrativa, sem ao menos deter uma noção básica de como coordená-los ou dispô-los em cena.
Tamanho é este descaso que os atores encontram-se, em invariável contumácia, meia-escala acima do sugerível; seja em tom, gestualização ou deslocamento espacial. Seguindo a tísica urdidura ficcional, as ferramentas tecno-operacionais são inteiramente apropriadas ao conjunto da obra:
A precariedade dos enquadramentos, o que já torna insustentável a janela de 1.33:1; variações angulares à beira da paralisia criativa, e que apenas sublinham o péssimo aproveitamento dos espaços; e uma edição desengonçada, que mutila abruptamente boa parte dos planos, como se não acreditasse no próprio material imagético.
No entanto, o mais duro é admitir que nem John Wayne alcança resultados satisfatórios. Apesar de exalar transpiração e profissionalismo, carece-lhe entusiasmo. Seu constrangimento nunca é parcialmente camuflado durante as falas alheias, além do amofinamento diante do ridículo de toda a situação.
E com toda razão o entusiasmo não lhe dá as caras, A Lei do Gatilho conseguiu estar abaixo da limitada qualidade dessas realizações, muitas vezes concluídas em questão de semanas, cujos fins eram truculentamente comerciais. O que, por outro lado, não é desculpa para ninguém. Porque Edgar G. Ulmer só precisou de seis dias, e de culhões entre os joelhos, para eternizar o seu mítico Curva do Destino.
Por mais fracos que fossem um Carl Pierson e um Harry L. Fraser, não conseguiram a proeza do Sr. Bradbury: converter o potencial da maior lenda entre os cowboys num irregular objeto de imagem.


2 comentários:
Felipe
Há um bom tempo vi alguns desses filmes aqui citados. Também tive uma impressão tão negativa quanto. Acho que você foi muito feliz ao citar Curva do Destino, que é inclusive um dos meus filmes favoritos.
Abraço, Marcos.
É foda, realmente.
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