segunda-feira, 7 de abril de 2008

Playtime...


Jacques Tati foi um realizador de poucas obras. E isso não o impediu de garantir seu nome entre os maiores gênios da sétima arte. Profílicos vazios de plantão bem que poderiam ter 1/12 de 0,1o% do respeito que o mestre francês teve em relação à relevância e à reciclagem formal. A figura do Sr. Hulot, protagonista de suas obras-primas antecedentes (As Férias do Sr. Hulot e Meu Tio), em Playtime se perde literalmente dentro do turbilhão caótico da vida moderna. A personagem principal desta vez é o próprio desenvolvimento desordenado das metrópoles ocidentais, que maximizam o artificialismo das situações mais corriqueiras de uma rotina paga a prestações infindáveis: estupifificação trabalhista; padronização comportamental, e seu excesso de reservismos; a redução da liberdade ao nível maquinal; a indiferença em doses cavalares; e um nivelamento impositivo de servilismo, haurido da "aceitável" estratificação social. O tino sempre genial de Tati para o uso do som e da funcionalidade dos objetos distribuídos nos cenários, ainda reproduzem a esterilização individual promovida pelo sistema capitalista, sob cada faceta da humanidade. Na qual, a grande maioria de seus membros se assemelha a um refugo mal-feito de outras cópias.

A gigantesca cidade cinematográfica, representando Paris, é engolida por cores mortas em que o cinza tem predominância. À noite, ou, mais precisamente, ao decorrer do filme, banhada por luzes ultra-artificiais de anúncios publicitários. Pincela-se uma atmosfera entediante e opressora, que termina por se confundir com a onipresença da ofertas de renúncia ao ímpeto humano. Restaurantes, shopping centers, lojas de conveniência e, até mesmo, um convite para uma visita familiar aplicam-se à idéia de bem-estar pelas vias de um cinismo atrelado à domesticalização materialista do eu. À medida que o progresso se confirma, as possibilidades de uma realização afetiva, ou a entrega satisfatória entre as personagens, nunca se cristalizam. E com bastante ironia, aqui, pelos sustentáculos artificiais da realidade: como na cena em que Hulot tenta entregar um souvenir à turista americana, por pouco impedido de realizá-lo devido ao burocrático sistema de catracas do estabelecimento, já que fisicamente a despedida entre eles é comprometida. Sob todos as formas (geométricas), Hulot lembra um corpo estranho às maravilhas arquitetônicas, quando não prestes a destruir algo me-ti-cu-lo-sa-men-te projetado ao mais puro refinamento visual – associado por Tati à superficialidade da beleza -, prestes a perturbar a ordem natural (homogênia, sempre) dos locais. Em outras palavras: a espontaneidade do melhor dos gestos, o genuinamente humano, termina por esbarrar em alguma imobilidade estetizante, quando não moralizante.

Ao auxílio das lentes de 70mm, valoriza-se cada mísero detalhe dos enormes espaços em que Hulot, acompanhado por sua doçura e, quase trágica, boa-vontade, consegue escapulir da tela por alguns minutos (!). Esse efeito realista nunca é menos que impressionante, sem que possamos conseguir maiores informações sobre o que lhe pudesse ter acontecido; sistematizando, de forma paulatina, o fortalecimento do sentimento de incomunicabilidade e isolamento. Não è à toa que, 70% dos diálogos, mais ou menos, sejam constituídos por um burburinho bastante rico em nuances técnicas, atento às variações rítmicas e às modificações flexivas dos seus locutores. Playtime também, aos poucos, se afirma como um eneagrama das particularidades formais do cinema de Tati que, longe de serem equacionadas pelo pleiteamento de um modo operante sustentável, são de modo surpreendente problematizadas: como se o próprio Monsieur Hulot (ou as figuras simples dos outros protagonistas vividos pelo cineasta, em suma), além de seu aparato humorístico e mise-en-scène do total planejamento e tangência cênica de Tati, já não fossem possíveis naquele mundo de interesses fugazes, afeito à doutrina da ostentação.

No que implica em um questionamento sobre qual seria a extensão mais correta de sua representação (ou não efetuação) imagética. E até que ponto não haveria uma espécie de esgotamento das imagens captadas, reflexo exato de uma realidade desconjuntada onde nada parece dar em nada. As plataformas desse eixo metafílmico estreitam-se a um leve desequilíbrio narrativo, trabalhado através do ocaso das situações-tramas, cujo efeito é crucial para que o fluxo estrutural da verossimilhança pretendida sirva a contento uma compatibilidade rítmica entre ambos. Portanto, trata-se um filme incensurável. Mas, acima de tudo, ser o aquilo que lhe convém ser, estando pouco interessado para o que possa vir além ou adicionado a isso ou àquilo, parece ser necessariamente o que importava a Tati em Playtime. Absolutamente, alheio a modismos e a "tiques" maneiristas da época; dono de um estilo que se impõe a si mesmo. E é muito.

5 comentários:

Anônimo disse...

Adorei esse:
"Playtime também, aos poucos, se afirma como um eneagrama das particularidades formais do cinema de Tati que, longe de serem equacionadas pelo pleiteamento de um modo operante sustentável, são de modo surpreendente problematizadas:como se o próprio Monsieur Hulot (ou as figuras simples dos outros protagonistas vividos pelo cineasta, em suma), além de seu aparato humorístico e mise-en-scène do total planejamento e tangência cênica de Tati, já não fossem possíveis naquele mundo de interesses fugazes, afeito à doutrina da ostentação."

Felipe Medeiros de Morais disse...

Acho Playtime um dos filmes mais inteligentes da história. E acho que traduz perfeitamente o Tati: simples, direto e franco.

Que falta!

Anônimo disse...

Perfeito, de fato as colocações.

Marcos.

Anônimo disse...

Ele tem uma coisa que eu adoro
(porque considero muito típica do cinema, ao contrário do histrionismo e da descoordenação do teatro),e que o liga pra mim a Buster Keaton, por exemplo, ou a Tsai Ming Liang: uma coisa de autômato espiritual, o humor que nasce de uma mecânica, de uma ( des)-organicidade de movimentos bem articulados, coordenados, meio inumanos.

Felipe Medeiros de Morais disse...

Errado pra Cachorro e o mestre Lewis foram visto por moi, hoje! rs... Acho que o melhor humor nasce daí mesmo.