Não há como negar que Michael Haneke é detentor de notáveis haveres operacionais, porém seu olhar está longe de se justapor harmoniosamente sobre sua técnica, daí a irregularidade tão presente na filmografia desse inquietante cineasta. Em a Professora de Piano, a mise-en-scène do cineasta peca mais uma vez pela ostentação abusiva referente ao exercício da manipulação fílmica. A qual tende a constranger os espectadores, ainda, pelo sadismo explícito de quem arranca as "verdades" pertencentes às personagens sem a mínima hesitação de assim ser. E a evocar uma reação desencadeada contra qualquer influência manobrista de âmbito não ficcional; impregnando a obra de supérfluas decodificações da deterioração sociocultural da Europa. Nela, há um profundo desencanto quanto às perspectivas de uma possível (re) humanização da sociedade contemporânea, invariavelmente marcada pela intolerância e o comodismo. Desse sentimento de que há um bom tempo a civilização tornou-se um termo obsoleto, um reles ilustrativo de discursos vazios, Haneke persegue sua consolidação estilística: picotando a espacialidade cênica (dando um efeito de fratura imagética), correspondente ao estado atual das coisas; fortalecendo a letargia homodiegética para evidenciar o caráter de urgência e dever político das tramas; uma monolítica resolução clínica, ao mesmo tempo cínica, de seus planos estáticos.
Fugindo da estereotipagem dos filmes anteriores, temos uma personagem mais complexa como protagonista (Erika Kohut), interpretada pela ótima Isabelle Huppert. A professora vienense participa de pomposos círculos sociais por ser uma reconhecida profissional, especializada em Schubert (numa alusão ao seu gradual processo de loucura). É, ainda, dona de uma inteligência rigorosa e de um implacável senso crítico. Mas a higienização de seus gestos superficiais contrastam diametralmente ao seu frenesi interior. Na primeira cena saberemos que é superprotegida pela mãe, que lhe liga diversas vezes ao dia para mantê-la centrada, como a principal referência do conservatório musical. Ao chegar, em casa, sabe-se que seu vestido novo fora destruído pela tirânica figura materna. A filha não digere o tom moralizante das justificativas e, em seguida, puxa-lhe os cabelos. O arrependimento surge mais tarde; aos prantos, como uma criança indefesa, Érika é retribuída com uma ternura das mais comoventes por parte da "vítima". Ficam claras as intenções do diretor em construir um aparato psicológico bem mais elaborado para suas personagens desajustadas, deixando-as mais interessantes do que o usual - tanto do ponto de vista dramático como ético. Infelizmente essa busca mais refinada, na compreensão das leis de causa e efeito do universo retratado, ao contrário das (outrora) exibições depreciativas do ser humano, evidencia a triste incapacidade de Haneke em não ir a fundo de qualquer questão levantada. Logo, a simbologia das "saídas" suscitadas ao estado de coma europeu é paupérrima de contundência.
Sem mais nem menos, a interessante relação entre a gélida professora competente, que recorria à auto-flagelação e ao voyerismo como formas máximas de expressão vital (mesmo que esbarrando nos dogmas da polidez de seu subconsciente) e o jovem aluno idealista, é retirada bruscamente de foco. A partir daí cada plano buscará atingir o antipoético. Mas de um jeito tão mecânico que dificilmente o resultado obtido não vem acompanhado por uma carga maçante de indiscrição autoral, que compromete o desenvolvimento das personagens e torna sua análise tipológica bastante incompleta. A despeito de todo o didatismo operacional dos recitais e das aulas (ou até do considerável excesso de retórica nos diálogos), havia um desarmamento malicioso no coração de Karina, provocado pela espontaneidade de Walter, que largara a faculdade de engenharia, e a promessa de uma vida estável, para amá-la incondicionalmente; capaz de desmantelar completamente sua obsessão pela compostura ideal. As peças da narrativa, até então apresentadas, corresponderiam perfeitamente às questões concernentes a Haneke... Mas a "obrigação" de chocar pelo repúdio à cretinização da realidade (como se não fosse cabível ao amor esse papel de ruptura), reduz as personagens a animais grotescos; perdidos em uma sociedade ainda mais insana. Como um refém da fama, vinda com o abertamente nojento "Violência Gratuita", seu quarto filme, irá "desmascarar" qualquer noção de decência relacionada ao velho continente. E o resultado é desastroso.
O desrespeito pela bizarra opção sexual da professora (mas legítima, pombas!) é tanto, que em certos momentos a torna alvo de puro achincalhamento. Dela talvez se exponha a resolução dramática mais grave: a não correspondência moral de Walter, e seu respectivo desprezo, passam a carregá-lo de uma condenação pra lá de determinista, na maneira que o retrata. Se por um lado a despreza, ele se sente ferido como homem, no outro. Em um gesto de extremo desespero, acaba por invadir o apartamento de Karina, e a estupra para saciar a vontade de tê-la numa relação convencional. Mas vendo que pratica sexo com uma mulher absolutamente frígida, e alheia à normalidade do prazer, foge do local. Fica evidente que é mais um ser maleável, teleguiado pelo conformismo e pelas necessidades fisiológicas. Antes manipulado pela família (criado como um animalzinho de estimação eficiente), agora pelas lacunas não preenchidas de sua “identidade”. Assim como Karina, ele apenas encara o sexo como um escapismo de auto-afirmação, de situação no mundo. A própria existência do amor passa a ser discutida, tornando o filme, de longe, como o mais desesperançado e da carreira de Haneke.
Por fim, a professora atinge o estado de demência e segue a vagar com uma faca cravada no peito (por ela mesma) pelas ruas. O rapaz, que a cumprimenta um pouco antes desta desenvolver por completo a patologia mental, num encontro casual, segue às gargalhadas (abraçado com uma garota) junto de amigos para suas respectivas poltronas. Eles esperam pelo espetáculo. Mas não haverá espetáculo (como celebração propriamente humana do belo) enquanto não houver condições lógicas para isso. Essa metáfora visual ajuda a entender e a repensar um pouco mais a proposta fílmica desse artista tão polêmico, incoerente, verdadeiro, antiquado, libertário, tolo, castrador, irrelevante e engajado.


2 comentários:
Só vi Violência Gratuita dele. Se possor dizer com alguma extadião, foi um dos piores filmes da minha vida.
Marcos.
D'accord.
Postar um comentário